terça-feira, 31 de maio de 2011

Uma Noite Esquecida

Mesquita do Sultão

Uma Noite Esquecida

I

Havia em Bagdá uma mulher do tempo de Aladim; é a sua história que vou narrar:

Num dos subúrbios de Bagdá, não longe do palácio da sultana Sheherazad, morava uma velha mulher chamada Manouza. Feiticeira das mais apavorantes, essa velha era motivo de terror em toda a cidade. À noite passavam-se em sua casa coisas tão assustadoras que, mal se punha o sol, ninguém se aventurava a passar por ali, a não ser algum homem apaixonado, à procura de um filtro para sua amante rebelde, ou uma mulher abandonada, em busca de um bálsamo para pôr na ferida que o amante, ao

desampará-la, lhe havia provocado.

Certo dia em que o sultão estava mais triste que de costume e a cidade se achava em grande desolação porque queria mandar matar a sultana favorita e que, por seu exemplo, todos os homens eram infiéis, um jovem deixou a sua magnífica habitação, situada ao lado do palácio da sultana. Esse jovem usava uma túnica e um turbante de cores sombrias; mas sob essas simples vestimentas havia um grande ar de distinção. Procurava ocultar-se ao longo das casas, como se fora um amante que temesse ser surpreendido.

Dirigia-se para os lados da casa de Manouza, a feiticeira. Uma viva

ansiedade estampava-se em seu rosto, denunciando a preocupação que o agitava. Atravessou as ruas e praças rapidamente, porém usando de grande precaução.

Chegando à porta, hesitou por alguns minutos, decidindo-se depois a bater. Durante um quarto de hora padeceu angústias mortais, porque ouvia ruídos que nenhum ouvido humano até então havia escutado; uma matilha de cães uivava com ferocidade, gritos lamentosos faziam-se ecoar e se percebiam

gemidos de homens e mulheres, como sói acontecer no fim de uma orgia; e, para iluminar todo esse tumulto, luzes correndo de cima a baixo da casa, fogos fátuos de todas as cores. Depois, como que por encanto, tudo cessou: as luzes se apagaram e abriu-se a porta.

II

O visitante ficou confuso por alguns instantes, sem saber se devia entrar no corredor escuro que surgia à sua vista.

Por fim, armando-se de coragem, penetrou audaciosamente. Depois de haver caminhado às cegas o espaço de trinta passos, encontrou-se diante de uma porta que abria para uma sala, iluminada apenas por uma lâmpada de cobre de três bicos, suspensa do centro do teto.

A casa que, conforme o barulho ouvido da rua, deveria ser muito habitada, tinha agora um ar deserto; a sala, imensa, e que por sua construção devia ser a base do edifício, estava vazia, se excetuarmos os animais empalhados de todo tipo que a guarneciam.



No meio dessa sala havia uma pequena mesa coberta de livros de magia e, à sua frente, numa grande poltrona, estava assentada uma velhinha de apenas dois côvados, e de tal maneira agasalhada com xales e turbantes que era impossível divisar seus traços. À aproximação do estranho ela levantou a cabeça e lhe mostrou o mais terrível rosto que se possa imaginar.

“Eis que estás aqui, Sr. Noureddin, disse ela, fixando os olhos de hiena no rapaz que entrava; aproxima-te! Faz vários dias que meu crocodilo de olhos de rubi anunciou-me tua visita.

Dize se é de um filtro que precisas, ou de fortuna. Mas, que digo eu, fortuna! A tua não faz inveja ao próprio sultão? Não és o mais rico, assim como és o mais belo? Provavelmente é um filtro que vens procurar. Qual é, pois, a mulher que tem a ousadia de ser cruel contigo? Enfim, nada devo dizer; nada sei; estou pronta a ouvir-te as dificuldades e a te dar os remédios necessários, desde, naturalmente, que minha ciência tenha o poder de te ser útil. Mas por que me olhas assim e não avanças? Estarias com medo? Tal

como me vês eu te amedronto, por acaso? Outrora fui bela; mais bela que todas as mulheres existentes em Bagdá; foram os desgostos que me tornaram tão feia assim. Mas que te importam os meus sofrimentos? Aproxima-te: eu te escuto; apenas não te posso conceder mais que dez minutos; apressa-te, portanto.”

Noureddin não estava muito tranqüilo; entretanto, porque não quisesse mostrar à velha a perturbação que o agitava, avançou e lhe disse: “Mulher, venho aqui por uma coisa grave; de tua resposta depende a sorte de minha vida; vais decidir da minha felicidade e da minha morte. Eis do que se trata:

“O sultão quer mandar matar Nazara; eu a amo; vou contar-te de onde vem esse amor e te pedir me tragas um remédio, não à minha dor, mas à sua infeliz situação, porquanto não desejo que ela morra. Sabes que meu palácio é vizinho ao do sultão; nossos jardins se tocam. Há cerca de seis semanas, passeando à noite em meus jardins, ouvi uma música encantadora, acompanhada da mais deliciosa voz de mulher que jamais ouvira. Querendo saber de onde vinha, aproximei-me dos jardins vizinhos e percebi que se originava de um caramanchão de verdura, habitado pela sultana favorita.

Fiquei vários dias absorvido por esses sons melodiosos; sonhava noite e dia com a bela desconhecida, cuja voz me havia seduzido, porque, é preciso que te diga, no meu pensamento só podia ser bela. Todas as noites eu passeava nas mesmas aléias onde tinha ouvido aquela maravilhosa harmonia. Durante cinco dias foi em vão; finalmente, no sexto dia a música fez-se ouvir novamente; não mais me podendo conter, aproximei-me do muro e vi que era preciso despender pouco esforço para o escalar.

“Após alguns momentos de hesitação, tomei uma grande decisão: passei do meu para o jardim vizinho; ali percebi não uma mulher, mas uma huri, a huri favorita de Maomé, uma maravilha, enfim! À minha vista ela se assustou um pouco mas, lançando-me a seus pés, supliquei que não tivesse nenhum receio e me ouvisse; disse-lhe que seu canto me havia atraído e garanti-lhe que em minhas atitudes não encontraria senão o mais profundo respeito; ela teve a bondade de me ouvir.

“Passamos a primeira noite a falar de música. Também cantei e ofereci-me para acompanhá-la; ela consentiu, e marcamos encontro para o dia seguinte, à mesma hora. Naquele momento estava mais tranqüila; o sultão estava em seu conselho e a vigilância era menor. As duas ou três primeiras noites se passaram inteiramente com música; mas a música é a voz dos amantes e, a

partir da quarta noite, não éramos mais estranhos um a outro: nós nos amávamos. Como era bela! Como sua alma também o era!

Planejamos a fuga diversas vezes. Ah! por que não a realizamos?

Eu seria menos infeliz e ela não estaria prestes a sucumbir. Essa bela flor não estaria a ponto de ser colhida pela foice que vai arrebatá-la à luz.

(Continua no próximo número.)

ALLAN KARDEC
R E V I S T A E S P Í R I T A
N O V E M B R O D E 1 8 5 8
Ditada pelo Espírito de Frédéric Soulié.
PÁGINAS 479 a 482






















































segunda-feira, 30 de maio de 2011

A GARÇA

A Garça

A GARÇA



Estava sentada na praia


pensando no meu amor.


A garça veio voando


e no meu lado pousou.



Escrevi uma cartinha


pra mandar pro meu amor.


A garça pegou a carta


e num momento voou.



Depois de uma semana


a resposta chegou.


Dizia: meu bem, te amo,


espera por mim, meu amor.



Chegou o dia marcado


meu amor fui esperar,


e quando estávamos juntos


a garça também chegou.


Parecia que dizia:


Oh! Como é lindo o amor.


MARIA DA ANUNCIAÇÃO PEREIRA

sábado, 28 de maio de 2011

PERANTE OS PARENTES


PERANTE OS PARENTES

Desempenhar todos os justos deveres para com aqueles que lhe comungam as teias da consangüinidade.

Os parentes são os marcos vivos das primeiras grandes responsabilidades do Espírito encarnado.

Intensificar os recursos de afeto, compreensão e boa-vontade para os afins mais próximos que não lhe compreendam os ideais.

O lar constitui cadinho redentor das almas endividadas.

Dilatar os laços da estima além do círculo da parentela.

A humanidade é a nossa grande família.

Acima de todas as injunções e contingências de cada dia, conservar a fidelidade aos preceitos espíritas cristãos, sendo cônjuge generoso e melhor pai, filho dedicado e companheiro benevolente.

Cada semelhante nosso é degrau de acesso à Vida Superior, se soubermos recebê-lo por verdadeiro irmão.

Melhorar, sem desânimo, os contactos diretos e indiretos com os pais, irmãos, tios, primos e demais parentes, nas lides do mundo, para que a Lei não venha a cobrar-lhe novas e mais enérgicas experiências em encarnações próximas.

O cumprimento do dever, criado por nós mesmos, é lei do mundo interior a que não poderemos fugir.

Imprimir em cada tarefa diária os sinais indeléveis da fé que nutre a vida, iniciando todas as boas obras no âmbito estreito da parentela corpórea.

Temos, na família consangüínea, o teste permanente de nossas relações com a Humanidade.

“Mas se alguém não tem cuidado dos seus e principalmente dos da sua família, negou a fé e é pior do que o infiel.” — Paulo. (I TIMÓTEO, 5:8.)

Conduta Espírita
ANDRÉ LUIZ
Waldo Vieira

sexta-feira, 27 de maio de 2011

O Espírito Batedor de Bergzabern

 Batedor de Bergzabern
No dia 1º de janeiro deste ano (1852), na casa em que habitava e num quarto vizinho ao em que comumente ficava, a família Pierre Sanger, de Bergzabern, ouviu um ruído como se fora um martelamento, iniciando-se por golpes surdos que pareciam vir de longe e que se tornavam progressivamente mais fortes e distintos.

Esses golpes davam a impressão de ser desferidos contra a parede, perto da qual se achava o leito onde dormia seu filho, de onze anos de idade. Habitualmente era entre nove horas e meia e dez e meia que o ruído se fazia ouvir. A princípio o casal Sanger não lhe deu maior importância; porém, como tal singularidade se repetisse a cada noite, pensaram que poderia vir da casa vizinha, onde, à guisa de passatempo, um enfermo se distraísse em tamborilar contra a parede. Contudo, logo o casal se convenceu de que o doente não era nem poderia ser a causa do ruído. O chão do quarto foi revolvido, a parede derrubada, mas sem qualquer resultado. O leito foi removido para o lado oposto do quarto; e então – coisa admirável! – o ruído passou a ser ouvido desse lado, tão logo o menino dormia.

Estava muito claro que de alguma forma a criança tomava parte na manifestação daquele ruído; como as pesquisas da polícia nada descobriram, começou-se a pensar que o fenômeno pudesse ser atribuído a uma doença do garoto ou a uma particularidade de sua conformação. Contudo, nada até agora veio confirmar essa hipótese.

É ainda um enigma para os médicos.

Com o passar do tempo, a coisa não fez senão desenvolver-se; o ruído se prolongou além de uma hora, e as batidas tinham mais força. A criança foi trocada de quarto e de leito, mas o batedor se manifestou nesse outro quarto, sob a cama, na cama e na parede. As batidas não eram idênticas; ora eram fortes, ora fracas e isoladas, ora, enfim, sucedendo-se rapidamente e seguindo o ritmo das marchas militares e dos bailados.

O garoto ocupava, desde alguns dias, o quarto acima mencionado quando notaram, durante o sono, que ele emitia palavras curtas e incoerentes. Logo se tornaram mais distintas e mais inteligíveis; dir-se-ia que a criança conversava com outra pessoa, sobre a qual tinha autoridade. Entre os fatos que diariamente se produziam, o autor desta brochura narrará um, do qual foi testemunha: Achava-se a criança no leito, deitada sobre o lado esquerdo. Tão logo pegou no sono, os golpes começaram, pondo-se ela a falar assim: “Tu, tu, bate uma marcha.” E o batedor batia uma marcha que se assemelhava bastante a uma marcha da Bavária. À ordem de “Alto!” dada pela criança, o batedor parou. Então a criança ordenou: “Bate três, seis, nove vezes”, e o batedor executou a ordem.

A uma nova ordem de bater 19 golpes, 20 pancadas fizeram-se ouvir; completamente adormecida, a criança disse: “Não está certo, são 20 golpes”, e logo 19 golpes foram contados. Em seguida, o menino ordenou 30 golpes: ouviram-se 30 batidas. “100 golpes”. Não se pôde contar senão até 40, tão rapidamente se sucediam as pancadas.

Ao último golpe, disse o garoto: “Muito bem; agora 110”. Aqui só se pôde contar cerca de 50 pancadas. Quando soou o último golpe, o dorminhoco disse: “Não é isso, foram apenas 106” e logo mais quatro pancadas fizeram-se ouvir para completar o número 110.

Depois ele pediu: “Mil!”; somente 15 golpes foram dados. “Vamos, diga lá!” Houve ainda 5 pancadas e o batedor parou. Então os assistentes tiveram a idéia de ordenar diretamente ao batedor, executando este as ordens que lhe eram dadas. Ele se calou à ordem de “Alto! Silêncio! Paz!”. Depois, por si mesmo e sem comando, recomeçou a bater. Num canto do quarto, em voz baixa, um dos assistentes disse que queria ordenar, apenas pelo pensamento, 6 batidas. O experimentador postou-se diante do leito e não disse sequer uma palavra: foram ouvidas as 6 pancadas. Ainda por pensamento foram comandados 4 golpes e os 4 golpes foram batidos.

A mesma experiência foi tentada por outras pessoas, nem sempre com sucesso. Logo a criança distendeu os membros, afastou o cobertor e se levantou.

 
Quando lhe perguntaram o que havia acontecido, respondeu que tinha visto um homem grande e mal-encarado, que se mantinha diante de seu leito a apertar-lhe os joelhos. Acrescentou que sentia dor nos joelhos quando o homem batia. A criança dormiu novamente e as mesmas manifestações se reproduziram até que o relógio do quarto bateu onze horas. De repente o batedor parou, o menino entrou em sono tranqüilo, o que foi reconhecido pela regularidade da respiração, e nada mais foi ouvido naquela noite.

 
Observamos que o batedor obedecia ao comando de bater marchas militares. Várias pessoas afirmaram que quando se lhe pedia uma marcha russa, austríaca ou francesa, ela era batida com muita exatidão.

No dia 25 de fevereiro, estando adormecido, disse o menino: “Não queres mais bater agora, queres arranhar; pois bem! quero ver como o farás”. Com efeito, no dia seguinte, 26, em lugar das pancadas, ouviu-se um arranhar que parecia vir do leito e que se tem manifestado até hoje. Os golpes se misturavam à raspadela, ora alternadamente, ora simultaneamente, de tal sorte que nas árias de marcha ou de dança a raspadura marcava a primeira parte e os golpes a segunda. Conforme o pedido, a hora do dia e a idade das pessoas presentes eram indicadas por raspagem ou por golpes secos.

Em relação à idade das pessoas, às vezes havia erros, logo corrigidos na 2a ou 3a tentativas, quando se dizia que o número de pancadas não era exato. Amiúde, em vez de dar a idade pedida, o batedor executava uma marcha.

A linguagem da criança, durante o sono, tornava-se cada dia mais perfeita. Aquilo que a princípio não passava de simples palavras ou ordens muito breves ao batedor, com o tempo se transformou numa conversa ordenada com os pais. Assim, um dia ele se entreteve com a irmã mais velha sobre assuntos religiosos e, em tom de exortação e de instrução, disse-lhe que devia ir à missa, orar todos os dias e mostrar submissão e obediência aos pais. À noite, retomou o mesmo assunto de conversa; em seus ensinamentos nada havia de teológico, mas apenas algumas noções que se aprende na escola.

Antes dessas palestras, pelo menos durante uma hora ouviam-se pancadas e arranhões, não somente durante o sono do garoto, mas, até mesmo, no estado de vigília. Vimo-lo beber e comer enquanto as batidas e raspadelas se manifestavam, e o vimos também, acordado, a dar ordens ao batedor, que foram todas executadas.

 
Na noite de sábado, 6 de março, havendo o menino predito a seu pai, durante o dia e completamente desperto, que o batedor apareceria às nove horas, várias pessoas se reuniram na casa dos Sanger. Às nove horas em ponto, quatro golpes foram batidos na parede com tanta violência que os assistentes se assustaram. Logo, e pela primeira vez, as batidas foram dadas na madeira da cama e exteriormente; o leito abalou-se todo. Esses golpes manifestaram-se de todos os lados da cama, ora num lugar, ora noutro. As pancadas e as arranhaduras alternavam-se no leito.
 
A uma ordem do menino e das pessoas presentes, ora os golpes se faziam ouvir no interior do leito, ora no exterior. De repente, a cama levantou-se em sentidos diferentes, enquanto os golpes eram batidos com força. Mais de cinco pessoas tentaram, sem sucesso, fazê-la voltar ao chão; tendo sido abandonada, ela se balançou ainda por alguns instantes, retomando depois a sua posição natural. Esse fato já havia ocorrido uma vez, antes dessa manifestação pública.

Toda noite, também, a criança fazia uma espécie de discurso. Falaremos disso muito sucintamente.

Antes de tudo é preciso notar que o garoto, assim que baixava a cabeça, logo dormia, e as pancadas e os arranhões começavam. Com os golpes, ele gemia, agitava as pernas e parecia sentir-se mal. O mesmo não ocorria com as raspadelas. Chegado o momento de falar, deitava sobre o dorso e sua face tornava-se pálida, assim como suas mãos e braços. Com a mão direita fazia sinal, dizendo: “Vamos! vem para perto do meu leito e junta as mãos: vou te falar do Salvador do mundo.” Então cessavam os golpes e os arranhões, e todos os assistentes ouviam com respeitosa atenção o discurso do adormecido.

A criança falava lentamente e de modo muito inteligível em puro alemão, o que surpreendia bastante, tanto mais quanto se sabia que era menos adiantada do que seus colegas de escola, sobretudo em virtude de uma moléstia dos olhos que a impedia de estudar. Suas palestras versavam sobre a vida e as ações de Jesus, desde os doze anos, de sua presença no templo com os escribas, de seus benefícios à Humanidade e de seus milagres; em seguida, estendia-se sobre o relato de seus sofrimentos, censurando severamente os judeus por o haverem crucificado, apesar de seus numerosos atos de bondade e de suas bênçãos. Terminando, o garoto dirigia a Deus uma prece fervorosa, rogando que “lhe concedesse a graça de suportar, com resignação, os sofrimentos que lhe enviara, pois que o havia escolhido para entrar em comunicação com o Espírito.” Pedia a Deus não o deixasse morrer ainda, pois era apenas uma criança e não queria baixar à tumba escura. Terminados seus discursos, recitava em voz solene o Pater noster, após o que dizia:
“Agora podes vir”; imediatamente as batidas e as arranhaduras recomeçavam. Ainda falou duas vezes ao Espírito e, a cada uma delas, o Espírito batedor parava. Dizia ainda algumas palavras e terminava assim: “Agora podes ir embora, em nome de Deus”. E despertava.

Durante essas conversas os olhos do menino ficavam bem fechados; os lábios, porém, se mexiam; as pessoas que estavam mais próximas do leito podiam observar-lhe os movimentos. A voz era pura e harmoniosa.

Ao despertar, perguntavam-lhe o que havia visto e o que se tinha passado. Respondia: “O homem que vem me ver” – “Onde está ele?” – “Perto de meu leito, com as outras pessoas” – “Vistes as outras pessoas?” – “Vi todas que estavam perto de meu leito”.

Compreende-se facilmente que tais manifestações encontraram muitos incrédulos e que se supôs mesmo que essa história toda não passasse de mistificação; mas o pai era incapaz de charlatanice, sobretudo de um charlatanismo que teria exigido toda a habilidade de um prestidigitador profissional. Ele gozava da reputação de um homem honrado e honesto.

Para responder a essas suspeitas e fazê-las cessar, o garoto foi levado para uma casa estranha. Mal lá chegou e as batidas e arranhaduras fizeram-se ouvir. Além disso, alguns dias antes tinha ido com sua mãe a um pequeno vilarejo chamado Capelle, a cerca de meia légua de distância, à casa da viúva Klein; ele se disse fatigado; deitaram-no sobre um canapé e logo o mesmo fenômeno se produziu. Várias testemunhas podem confirmar o fato. Embora a criança demonstrasse estar bem de saúde, devia, apesar disso, ser afetada por uma doença que, se não fosse provada pelas manifestações acima relatadas, pelo menos o seria pelos movimentos involuntários dos músculos e dos sobressaltos nervosos.

Para terminar, destacamos que há algumas semanas a criança foi conduzida à casa do Dr. Beutner, onde deveria permanecer, a fim de que o sábio pudesse estudar de mais perto os fenômenos em questão. Desde então cessou todo o barulho na casa dos Sanger, passando, todavia, a produzir-se na casa do Dr. Beutner.

Tais são, em toda a sua autenticidade, os fatos que se passaram. Nós os entregamos ao público sem emitir juízo de valor.

Oxalá possam os mais entendidos dar-lhes uma explicação satisfatória.

Blanck



M A I O de 1 8 5 8
R E V I S T A E S P Í R I T A
ALLAN KARDEC
Páginas 201 a 206




Sociedade Espírita A Casa do Caminho - Cabo de Santo Agostinho-PE.
 O Espírito

quinta-feira, 26 de maio de 2011

A ORAÇÃO DO HORTO


A ORAÇÃO DO HORTO

Depois do ato de humildade extrema, de lavar os pés de todos os discípulos, Jesus retomou o lugar que ocupava à mesa do banquete singelo e, antes de se retirarem, elevou os olhos ao céu e orou assim, fervorosamente, conforme relata o Evangelho de João:

Pai santo, eis que é chegada a minha hora! Acolhe-me em teu amor, eleva o teu filho, para que ele possa elevar-te, entre os homens, no sacrifício supremo.
Glorifiquei-te na Terra, testemunhei tua magnanimidade e sabedoria e consumo agora a obra que me confiaste. Neste instante, pois, meu Pai, ampara-me com a luz que me deste, muito antes que este mundo existisse!...

E fixando o olhar amoroso sobre a comunidade dos discípulos, que, silenciosos, lhe acompanhavam a rogativa, continuou:

Manifestei o teu nome aos amigos que me deste; eram teus e tu mos confiaste, para que recebessem a tua palavra de sabedoria e de amor. Todos eles sabem agora que tudo quanto lhes dei provém de ti! Neste instante supremo, Pai, não rogo pelo mundo, que é obra tua e cuja perfeição se verificará algum dia, porque está nos teus desígnios insondáveis; mas, peço-te particularmente por eles, pelos que me confiaste, tendo em vista o esforço a que os obrigará o Evangelho, que ficará no mundo sobre os seus ombros generosos. Eu já não sou da Terra; mas rogo-te que os meus discípulos amados sejam unidos uns aos outros, como eu sou um contigo! Dei-lhes a tua palavra para o trabalho santo da redenção das criaturas; que, pois, eles compreendam que, nessa tarefa grandiosa, o maior testemunho é o do nosso próprio sacrifício pela tua causa, compreendendo que estão neste mundo, sem pertencerem às suas ilusórias convenções, por pertencerem só a ti, de cujo amor viemos todos para regressar à tua magnanimidade e sabedoria, quando houvermos edificado o bom trabalho e vencido na luta proveitosa. Que os meus discípulos, Pai, não façam da minha presença pessoal o motivo de sua alegria imediata; que me sintam sinceramente em suas aspirações, a fim de experimentarem o meu júbilo completo em si mesmos. Junto deles, outros trabalhadores do Evangelho despertarão para a tua verdade, O futuro estará cheio desses operários dignos do salário celeste. Será, de algum modo, a posteridade do Evangelho do Reino que se perpetuará na Terra, para glorificar a tua revelação! Protege-os a todos, Pai! Que todos recebam a tua bênção, abrindo seus corações às claridades renovadoras! Pai justo, o mundo ainda não te conheceu; eu, porém, te conheci e lhes fiz conhecer o teu nome e a tua bondade infinita, para que o amor com que me tens amado esteja neles e eu neles esteja!.

Terminada a oração, acompanhada em religioso silêncio por parte dos discípulos, Jesus se retirou em companhia de Simão Pedro e dos dois filhos de Zebedeu para o Monte das Oliveiras, onde costumava meditar. Os demais companheiros se dispersaram, impressionados, enquanto Judas, afastando-se com passos vacilantes, não conseguia aplacar a tempestade de sentimentos que lhe devastava coração.

O crepúsculo começava a cair sobre o céu claro. Apesar do sol radioso da tarde a iluminar a paisagem, soprava o vento em rajadas muito frias.

Daí a alguns instantes, o Mestre e os três companheiros alcançavam o monte povoado de árvores frondosas que convidavam ao pensamento contemplativo.

Acomodando os discípulos em bancos naturais que as ervas do caminho se incumbiam de adornar, falou-lhes o Mestre, em tom sereno e resoluto:

Esta é a minha derradeira hora convosco! Oral e vigiai comigo, para que eu tenha a glorificação de Deus no supremo testemunho!

Assim dizendo, afastou-se, a pequena distância, onde permaneceu em prece, cuja sublimidade os apóstolos não podiam observar. Pedro, João e Tiago estavam profundamente tocados pelo que viam e ouviam. Nunca o Mestre lhes parecera tão solene, tão convicto, como naquele instante de penosas recomendações.

Rompendo o silêncio que se fizera, João ponderou:

Oremos e vigiemos, de acordo com a recomendação do Mestre, pois, se ele aqui nos trouxe, apenas nós três, em sua companhia, isso deve significar para o nosso espírito a grandeza da sua confiança em nosso auxílio.

Puseram-se a meditar silenciosamente. Entretanto, sem que lograssem explicar o motivo, adormeceram no decurso da oração.

Passados alguns minutos, acordavam, ouvindo o Mestre que lhes observava:

Despertai! Não vos recomendei que vigiásseis? Não podereis velar comigo, um minuto?

João e os companheiros esfregaram os olhos, reconhecendo a própria falta.

Então, Jesus, cujo olhar parecia iluminado por estranho fulgor, lhes contou que fora visitado por um anjo de Deus, que o confortara para o martírio supremo. Mais uma vez lhes pediu que orassem com o coração e novamente se afastou. Contudo, os discípulos, insensivelmente, cedendo aos imperativos do corpo e olvidando as necessidades do espírito, de novo adormeceram em meio da meditação. Despertaram com o Mestre a lhes repetir:

Não conseguistes, então, orar comigo?

Os três discípulos acordaram estremunhados. A paisagem desolada de Jerusalém mergulhava na sombra.

Antes, porém, que pudessem justificar de novo a sua falta, um grupo de soldados e populares aproximou-se, vindo Judas à frente.

O filho de Iscariotes avançou e depôs na fronte do Mestre o beijo combinado, ao passo que Jesus, sem denotar nenhuma fraqueza e deixando a lição de sua coragem e de seu afeto aos companheiros, perguntou:

Amigo, a que vieste?

Sua interrogação, todavia, não recebeu qualquer resposta. Os mensageiros dos sacerdotes prenderam-no e lhe manietaram as mãos, como se o fizessem a um salteador vulgar.


Depois das cenas descritas com fidelidade nos Evangelhos, observamos as disposições psicológicas dos discípulos, no momento doloroso. Pedro e João foram os últimos a se separarem do Mestre bem-amado, depois de tentarem fracos esforços pela sua libertação.

No dia seguinte, os movimentos criminosos da turba arrefeceram o entusiasmo e o devotamento dos companheiros mais enérgicos e decididos na fé. As penas impostas a Jesus eram excessivamente severas e para que fossem tentados a segui-lo. Da Corte Provincial ao palácio de Ântipas, viu-se o condenado exposto ao insulto à zombaria. Com exceção do filho de Zebedeu, que se conservou ao lado de Maria até ao instante derradeiro, todos os que integravam o reduzido colégio do Senhor debandaram. Receosos da perseguição, alguns se ocultaram nos sítios próximos, enquanto outros, trocando as túnicas habituais, seguiam, de longe, o inesquecível cortejo, vacilando entre a dedicação e o temor.

O Messias, no entanto, coroando a sua obra com o sacrifício máximo, tomou a cruz sem uma queixa, deixando-se imolar, sem qualquer reprovação aos que o haviam abandonado na hora última. Conhecendo que cada criatura tem o seu instante de testemunho, no caminho de redenção da existência, observou às piedosas mulheres que o cercavam, banhadas em lágrimas:
“Filhas de Jerusalém, não choreis por mim; chorai por vós mesmas e por vossos filhos.

Exemplificando a sua fidelidade a Deus, aceitou serenamente os desígnios do céu, sem que uma expressão menos branda contradissesse a sua tarefa purificadora.

Apesar da demonstração de heroísmo e de inexcedível amor, que ofereceu do cimo do madeiro, os discípulos continuaram subjugados pela dúvida e pelo temor, até que a ressurreição lhes trouxesse incomparáveis hinos de alegria.

João, todavia, em suas meditações acerca do Messias, entrou a refletir maduramente sobre a oração do Horto das Oliveiras, perguntando a si próprio a razão daquele sono inesperado, quando desejava atender ao desejo de Jesus, orando em seu espírito até o fim das provas ríspidas. Por que dormira ele, que tanto o amava, no momento em que o seu coração amoroso mais necessitava de assistência e de afeto? Por que não acompanhara Jesus naquela prece derradeira, onde sua alma parecia apunhalada por in traduzíve angústia, nas mais dolorosas expectativas? A visão do Cristo ressuscitado veio encontrá-lo absorto nesses amargurados pensamentos. Em oração silenciosa, João se dirigia muitas vezes ao Mestre adorado, quase em lágrimas, implorando-lhe perdoasse o seu descuido da hora extrema.


Algum tempo passou, sem que o filho de Zebedeu conseguisse esquecer a falta de vigilância da véspera do martírio.

Certa noite, após as reflexões costumeiras, sentiu ele que um sono brando lhe anestesiava os centros vitais. Como numa atmosfera de sonho, verificou que o Mestre se aproximava. Toda a sua figura se destacava na sombra, com divino resplendor. Precedendo suas palavras do sereno sorriso dos tempos idos, disse-lhe Jesus:

João, a minha soledade no horto é também um ensinamento do Evangelho e uma exemplificação! Ela significará, para quantos vierem em nossos passos, que cada espírito na Terra tem de ascender sozinho ao calvário de sua redenção, muitas vezes com a despreocupação dos entes mais amados do mundo. Em face dessa lição, o discípulo do futuro compreenderá que a sua marcha tem que ser solitária, uma vez que seus familiares e companheiros de confiança se entregam ao sono da indiferença! Doravante, pois, aprendendo a necessidade do valor individual no testemunho, nunca deixes de orar e vigiar!...

BOA NOVA
Pelo Espírito HUMBERTO DE CAMPOS
Francisco Cândido Xavier

quarta-feira, 25 de maio de 2011

Perante o divino mestre


Perante o divino mestre

"Que Mal fez ele? — perguntou Pilatos. Porém cada vez clamavam mais Seja Crucificado!"

Jesus Cristo!...

Condenado sem culpa, vencido e vencedor...

Profundamente amado, violentamente combatido!

De todos os títulos, preferiu o de Mestre, conquanto devesse, nas Provas Supremas, reconhecer-se abandonado pelos discípulos.

De todas as profissões praticou, um dia, a de carpinteiro, ciente de que não teria para a ministração de seus apelos e ensinamentos nem culminâncias de poder terrestre e nem galerias de ouro, mas, sim, pobres barcos talhados em serviço de enxó e a golpes de formão...

Soberano da Eternidade, permitiu se lhe aplicassem a coroa de espinhos, deixando-se alçar num sólio constituído de dois lenhos justapostos, em dois traços distintos...

Ele que se declarou enfeixando o caminho, a verdade e a Vida, deu-se na Estrema Renúncia, em penhor de semelhante revelação, suspenso nas horas derradeiras, sobre o traço vertical que simbolizava a Fé, a erigir-se em Caminho para o Céu, e sobre o traço horizontal, que exprimia o Amor, alimentado a Vida, na direção de todas as criaturas, como a dizer-nos que Ele era, na Cruz, a verdade torturada e silenciosa, entre a Fé e o Amor, a sustentar-se claramente erguida para a justiça Divina, batida e suplicada pelos homens, mas de braços abertos.



Emmanuel
Psicografia de Francisco Cândido Xavier
Do livro "Perante Jesus"


segunda-feira, 23 de maio de 2011

Perdão! A vítima passiva e a vítima ativa.


Pegadas de dinossauros em Sousa-PB.


Nelson Moraes, do livro PERDÃO! O Caminho da Felicidade!

"A tecnologia encurtou distâncias e ampliou as comunicações, proporcionando ao homem tomar conhecimento em poucos instantes de tudo o que acontece no mundo. Entretanto, com todos esses recursos, por incrível que pareça, a grande maioria dos homens ainda continua ignorante da sua real natureza e da verdadeira finalidade da vida.

É essa a ignorância que contribui para o aumento da criminalidade e o crescimento constante da população carcerária em todo o mundo. Se analisarmos o problema da criminalidade de forma um pouco mais profunda, vamos perceber que, na verdade, não existem criminosos, o que existe são dois tipos de vítimas dessa ignorância: a vítima passiva e a vítima ativa.

Os violentos, os desonestos, os corruptos, e os criminosos de toda sorte são as vítimas ativas que, sem compreenderem o verdadeiro significado da vida, acham-se no direito de tomar para si o que não conseguiram conquistar pelos meios adequados e justos.

Vítimas da própria ignorância, serão julgados no tribunal da própria consciência onde o remorso os condenará a duras penas que poderão representar séculos de sofrimentos até que, como vítimas da violência que usaram hoje, resgatem seus crimes no futuro.

Por outro lado, menos doloroso, nossos irmãos que sucumbiram como vítimas passivas, provavelmente, são criminosos de outrora que retornaram ao mundo físico para resgatarem a consciência atormentada pelos crimes cometidos em encarnações passadas. Como vítimas hoje, retornaram ao mundo espiritual aliviados em suas consciências.

Aqueles que sofreram da violência apenas prejuízos morais, materiais ou físicos, com certeza, submeteram-se a provações que, se compreendidas, servirão de lastro para grandes conquistas na renovação dos seus sentimentos, resgatando os equívocos cometidos no pretérito.

Analisando as duas situações, percebe-se que o ser humano, em qualquer circunstância, é sempre uma vítima de si mesmo e da sua ignorância; além disso, o mal que pratica acaba servindo aos propósitos divinos no cumprimento das suas leis sábias e justas que punem os criminosos de ontem, através dos criminosos de hoje. Todos são dignos da nossa compreensão!

Até que consigamos superar esse período de ignorância espiritual em que vive a maioria dos seres encarnados, os cárceres, os hospitais e os manicómios estarão sempre lotados.

Não quero, sob esse argumento, isentar da culpa aqueles que optaram pelos caminhos do crime, mas apenas chamar a atenção a um sentimento que, estimulado pela média, parece se generalizar na grande maioria das mentes desprevenidas. Trata-se da ideia de que os criminosos são seres à parte do contexto social e incapazes de qualquer recuperação.

Não podemos generalizar e nem tão pouco esquecer de que, há menos de cento e cinquenta anos, as leis humanas permitiam a muitos de nós, reencarnados naquela época, dar os filhos recém nascidos dos nossos escravos como alimento aos cães e aos porcos e até matar os adultos nos troncos, sob o guiaste infame da chibata, além de nos permitir praticar abusos inconfessáveis contra as mulheres cativas.

Apesar disso, não nos tornamos criminosos perante as leis da Terra, mas ferimos profundamente as leis naturais e as leis divinas.

É por esse motivo que jamais devemos julgar ou condenar quem quer que seja. Talvez os erros que apontamos no nosso próximo sejam aqueles que mais praticamos no passado. Hoje entendemos por que Jesus desafiou a turba sequiosa pela condenação, afirmando: "Atire a primeira pedra quem não tiver pecado".

Do livro PERDÃO! O Caminho da Felicidade!
Nelson Mora


domingo, 22 de maio de 2011

Libertação da Consciência


Joanna de Ângelis
Divaldo Franco




Libertação da Consciência



Não aguardemos que o aplauso do mundo coroe as nossas expectativas.
Não esperemos que as alegrias nos adornem de louros ou que uma coroa de luz desça sobre a nossa cabeça, vestindo-nos de festa.

Quem elegeu Jesus, não pode ignorar a cruz da renúncia.

Quem O busca, não pode desdenhar a estrada áspera do Gólgota.

Quem com Ele se afina, não pode esquecer que, Sol de primeira grandeza como é, desceu à sombra da noite, para ser o porto de segurança luminosa, no qual atracaremos a barca de nosso destino.

Jesus é o nosso máximo ideal humano, Modelo e Guia seguro.

Aquele que travou contato com a Sua palavra nunca mais O esquece.

Quem com Ele se identifica, perdeu o direito à opção, porque a sua, passa a tornar-se a opção d’Ele, sem o que, a vida não tem sentido.

Não é esta a primeira vez que nos identificamos com o Seu verbo libertador. Abandoná-lo é infidelidade, que O troca pelos ouropéis e utopias do mundo, de breve duração.

Não é esta a nossa experiência única no santuário da fé, que abraçamos desde a treva medieval, erguendo monumentos ao prazer, distantes da convivência com a dor.

Voltamos à mesma grei, para podermos, com o Pensamento Divino vibrando em nós, lograr uma perfeita identificação.

Lucigênitos, procedemos do Divino Foco, para o qual marchamos.

Seja, pois, a nossa caminhada assinalada pelas pegadas de claridade na Terra, a fim de que, aquele que venha após os nossos passos, encontre as setas apontando o caminho.

Jesus não nos prometeu os júbilos vazios dos tóxicos da ilusão. Não nos brindou com promessas vãs, que nos destacassem no cenário transitório da Terra. Antes, asseverou, que verteríamos o pranto que precede à plenitude, e teríamos a tristeza e a solidão que antecedem à glória solar.

Não seja, pois, de surpreender que, muitas vezes, a dificuldade e o opróbrio, o problema e a solidão caracterizem a nossa marcha. Não seja de surpreender, portanto, que nos vejamos em solidão com Ele, já que as

Suas, serão as mãos que nos enxugarão o pranto, enquanto nos dirá, suavemente: Aqui estou!

Perseveremos juntos, cantando o hino da alegria plena na ação que liberta consciências, na atividade que nos irmana e no amor que nos felicita.

Joanna de Ângelis
Psicografia de Divaldo Franco.



sábado, 21 de maio de 2011

Não basta não fazer o mal; é preciso também fazer o bem.

Bruna Luiza Batista Queiroga assídua na Evangelização infanto-juvenil.

A Doutrina Espírita

O Editor Dentu acaba de publicar uma obra deveras notável; diríamos mesmo bastante curiosa, mas há coisas que repelem toda qualificação banal.

O Livro dos Espíritos, do Sr. Allan Kardec, é uma página nova do grande livro do infinito, e estamos persuadidos de que um marcador assinalará essa página. Ficaríamos desolados se pensassem que acabamos de fazer aqui um anúncio bibliográfico; se pudéssemos supor que assim fora, quebraríamos nossa pena imediatamente. Não conhecemos absolutamente o autor, mas confessamos abertamente que ficaríamos felizes em conhecê-lo.

Aquele que escreveu a introdução que inicia O Livro dos Espíritos deve ter a alma aberta a todos os sentimentos nobres.

Aliás, para que não se possa suspeitar de nossa boa-fé e nos acusar de tomar partido, diremos com toda sinceridade que jamais fizemos um estudo aprofundado das questões sobrenaturais.

Apenas, se os fatos que se produziram nos causaram admiração, pelo menos jamais nos levaram a dar de ombros. Somos um pouco dessas pessoas que se chamam de sonhadores, porque não pensamos absolutamente como todo o mundo. A vinte léguas de Paris, à noite sob as grandes árvores, quando não tínhamos em torno de nós senão choupanas esparsas, pensávamos naturalmente em qualquer coisa, menos na Bolsa, no macadame dos bulevares ou nas corridas de Longchamp. Diversas vezes nos interrogamos, e isto muito tempo antes de ter ouvido falar em médiuns, o que haveria de passar no que se convencionou chamar o Alto. Outrora chegamos mesmo a esboçar uma teoria sobre os mundos invisíveis, guardando-a cuidadosamente para nós, e ficamos muito felizes de reencontrá-La quase por inteiro no livro do Sr. Allan Kardec.

A todos os deserdados da Terra, a todos os que caminham e caem, regando com suas lágrimas o pó da estrada, diremos: Lede O Livro dos Espíritos; isso vos tornará mais fortes. Também aos felizes, aos que pelos caminhos só encontram os aplausos da multidão ou os sorrisos da fortuna, diremos: Estudai-o; ele vos tornará melhores.

O corpo da obra, diz o Sr. Allan Kardec, deve ser reivindicado inteiramente pelos Espíritos que o ditaram. Está admiravelmente classificado por perguntas e por respostas. Algumas vezes, estas últimas são sublimes, e isto não nos surpreende; mas, não foi preciso um grande mérito a quem as soube provocar?

Desafiamos a rir os mais incrédulos quando lerem este livro, no silêncio e na solidão. Todos honrarão o homem que lhe escreveu o prefácio.

A doutrina se resume em duas palavras: Não façais aos outros o que não quereríeis que vos fizessem. Lamentamos que o Sr. Allan Kardec não tenha acrescentado: e fazei aos outros o que gostaríeis que vos fosse feito. O livro, aliás, o diz claramente e a doutrina, sem isto, não estaria completa. Não basta não fazer o mal; é preciso também fazer o bem. Se apenas sois um homem de bem, não tereis cumprido senão a metade do vosso dever. Sois um átomo imperceptível desta grande máquina que se chama mundo, onde nada deve ser inútil.

Sobretudo, não nos digais que se pode ser útil sem fazer o bem; ver-nos-íamos forçados de vos replicar por um volume.

Lendo as admiráveis respostas dos Espíritos na obra do Sr. Kardec, dissemos a nós mesmos que haveria um belo livro a escrever. Bem depressa reconhecemos que nos havíamos enganado: o livro já está escrito. Apenas o estragaríamos se tentássemos completá-lo.

Sois homem de estudo e possuís a boa-fé, que não pede senão para se instruir? Lede o Livro Primeiro sobre a Doutrina Espírita.

Estais colocado na classe dos que só se ocupam consigo mesmos e que, como se diz, fazem os seus pequenos negócios muito tranqüilamente, nada vendo além dos próprios interesses? Lede as Leis Morais.

A desgraça vos persegue com furor, e a dúvida vos envolve, por vezes, com o seu abraço gelado? Estudai o Livro Terceiro: Esperanças e Consolações.

Todos vós que abrigais nobres pensamentos no coração e que acreditais no bem, lede o livro do começo ao fim.

Se alguém nele encontrasse matéria para zombaria, nós o lamentaríamos sinceramente.

G. du Chalard



J A N E I R O D E 1 8 5 8
R E V I S T A E S P Í R I T A
Allan Kardec

sexta-feira, 20 de maio de 2011

Sursum corda


Sursum corda* *Coração ao alto.



“Desde os dias de João Batista até agora, o Reino dos Céus é tomado à força, e os violentos são os que o conquistam.” (Mateus, 11:12.)

O Reino dos Céus é dos fortes. Os abúlicos, os pusilânimes e os covardes jamais o alcançarão. Sua posse depende de uma porfiada conquista. A obra da salvação é obra de educação. Educar é desenvolver os poderes latentes do espírito, dentre os quais sobressai a Vontade. É com o poder da Vontade que se alcança o Céu. “A Vontade”, disse um eminente educador, “é a força principal do caráter, é, numa palavra, o próprio homem.” Tomás de Aquino, interpelado por certa senhora de alta sociedade sobre o que se fazia preciso para ganhar o Céu, respondeu: “Querer”.

A maioria dos erros que cometemos são atos de fraqueza moral. Os vícios dominam-nos, a cólera arrebata-nos, o ciúme consome-nos, a ambição perturba-nos, o orgulho cega-nos, o egoísmo envilece-nos. Dissimulamos a cada passo, abafando a verdade, preterindo a justiça, pactuando com a iniqüidade. E tudo por quê? — por fraqueza.

Uma vontade frouxa, deseducada, é a causa dos fracassos, dos desapontamentos, das quedas e das humilhações por que passamos na trajetória da existência. O Reino dos Céus há de ser tomado à força. É o único caso em que a violência se justifica. Sem energia de vontade não se doma a animalidade que nos degrada, não se sobe a simbólica escada de Jacó. Sem coragem moral não se abraça a verdade, nem se vive segundo a justiça.

O Apocalipse (3:15, 16 e 21), em sua linguagem parabólica, diz: “Não és frio, nem quente, oxalá fosses frio ou quente: És morno, por isso estou para te vomitar de minha boca. Ao vencedor, fá-lo-ei coluna no santuário do meu Deus”.

O morno é o fraco, é o tíbio, o indeciso, o medroso, que não sabe porfiar, que foge espavorido das lutas e das pelejas.

Jesus disse aos seus discípulos:

— Ide. Eu vos envio como ovelhas no meio de lobos.

Ele queria, portanto, homens resolutos, dispostos a enfrentar obstáculos e a conjurar perigos. A ovelha no meio da alcatéia corre risco iminente. E o Mestre aponta e salienta esse perigo ordenando peremptoriamente: “Ide”. Referindo--se ao caminho da salvação, disse que esse caminho é estreito como estreita é a porta que lhe dá acesso. Para melhor elucidar o caso, acrescenta: “Quem quiser ser meu discípulo, renuncie a tudo, inclusive à própria vida, tome sua cruz e siga-me”. (Mateus, 16:24; Marcos, 8:34; Lucas, 9:23.)

Os dizeres acima não dão margem a mal-entendidos. Eles exprimem clara e positivamente que, para ser cristão, o homem precisa tornar-se forte, corajoso, intrépido. E o Mestre o exemplificou dando perfeito testemunho, na sua vida terrena, de integridade de caráter, de valor moral e de intrepidez.

Ninguém me convence de pecado. — Eu venci o mundo. — Seja o teu falar sim, sim; não, não. Não temais os homens.

— Sede perfeitos como vosso Pai celestial é perfeito — são frases de um Espírito forte e valoroso. A expulsão dos vendilhões do templo, dadas as condições e o meio em que se operou, foi mais do que um ato de coragem moral, foi um cartel de desafio atirado pelo Mestre a uma horda de inimigos ferozes e poderosos.

O homem atual carece de valor moral.

O parasitismo crescente comprova tal asserção. Atravessamos uma época de crise de energia. Não de energia elétrica, como clama a imprensa de nossos dias, mas de energia moral, de coragem cívica, de inteireza de caráter. Semelhante crise é de consequências gravíssimas para a Humanidade. A crise de energia elétrica acarreta males relativos e sanáveis, enquanto a crise de energia moral, se não for conjurada, trará a dissolução social, determinará um verdadeiro cataclismo mundial.

Salvar é educar. O Reino dos Céus é conquista dos fortes. Eduquemos a vontade libertando nosso espírito da ignominiosa servidão, do negregado cativeiro do vício e das paixões.

Imaginar a salvação fora da autoeducação de nossas almas é utopia dogmática incompatível com a atualidade.

Salvemos o mundo, salvando-nos a nós mesmos.

SURSUM CORDA!
 
 
Do livro "Nas pegadas do mestre", de Vinícius.



quinta-feira, 19 de maio de 2011

A Regra de Ouro


Andrômeda


A Regra de Ouro
Alkíndar de Oliveira

Imagine um grande empresário que além de ser um homem de sucesso também fosse um visionário. Imagine que este homem, mundialmente conhecido, resolvesse pesquisar o porquê do sucesso, isto é, resolvesse pesquisar qual seria a razão de determinadas pessoas destacaram-se pessoal e profissionalmente enquanto outras ficam à margem da sociedade.

Imagine ainda que, para conseguir tal intento, este empresário financiasse todas as despesas desta pesquisa durante 25 anos. Durante 25 anos ( um quarto de século! ) seriam entrevistadas pessoas de sucesso. Durante 25 anos seriam catalogadas e pesquisadas as respostas destas pessoas para se chegar a um denominador comum.

Se tal ocorresse, seria uma pesquisa seríssima. E o resultado desta pesquisa deveria ser leitura e estudo obrigatório de todas as pessoas e de todas as escolas.

Mas será que existiu um empresário com tal disposição e visão de futuro?

Existiu.

Seu nome: Andrew Carnegie. Um dos propulsores do progresso dos Estados Unidos da América do Norte. Um legendário homem de negócios.

Andrew Carnegie financiou esta pesquisa e colocou à frente da mesma uma pessoa cujos estudos tornaram-na também legendária. Um nome respeitado por todos os consultores e pessoal ligado a treinamento e desenvolvimento humano: Napoleon Hill.

Napoleon Hill em seu livro “A Lei do Triunfo” ( Editora José Olympio ) ensina-nos em, 16 lições, como ser um homem de sucesso. Uma destas lições é denominada por ele de REGRA DE OURO e, conforme palavras do próprio, deve ser a base de toda conduta humana.

Qual é a regra de ouro?

“NUNCA FAREI AOS OUTROS AQUILO QUE NÃO DESEJARIA QUE ME FIZESSEM”.

Decepcionou-se? Esperava mais que isto? Mas, creia, aí está o princípio dos princípios. Aí está a base real das pessoas que realmente são um sucesso. Esta regra funciona como uma alavanca mágica. Aplique-a e se surpreenderá pelos resultados alcançados.

Como aplicar a regra de ouro?

Usemos da empatia. Isto é, antes de falarmos ou agirmos, coloquemo-nos no lugar do próximo. Criemos o hábito de colocarmo-nos no lugar do próximo e, então, ficará fácil aplicar a regra de ouro.

Do livro “Viver Bem É Simples, Nós É Que Complicamos”, Alkíndar de Oliveira, Editora Didier

(Alkíndar de Oliveira é consultor de empresas e autor do livro “Viver bem é simples, nós é que complicamos”, Editora Espírita Didier)