É VERDADE, ACONTECEU
NA CASA DO CAMINHO (11).
“Mas Deus disse-lhe: Insensato,
esta noite te exigirão a tua alma; e as coisas que ajuntaste, para quem serão?
Assim é aquele que entesoura para si, e não é rico para com Deus. Jesus disse a
seus discípulos: Portanto vos digo: Não andeis cuidadosos da vida pelo que
haveis de comer, nem do corpo pelo que haveis de vestir. Pois a vida é mais que
o alimento, e o corpo mais que o vestido. Considerai os corvos, que
não semeiam nem ceifam, não têm despensa nem celeiro; contudo Deus os alimenta.
Quanto mais valeis vós do que as aves! Qual de vós, por mais ansioso que
esteja, pode acrescentar um cúbito à sua estatura? Se, pois, não podeis fazer
nem as coisas mínimas, por que estais ansiosos pelas outras? Considerai
os lírios, como não trabalham nem fiam; contudo vos digo que nem Salomão em
toda a sua glória se vestiu como um deles. Pois se Deus assim veste a erva no
campo, que hoje existe, e amanhã é lançada no forno, quanto mais a vós, homens
de pouca fé! Não procureis o que haveis de comer ou beber, nem andeis
solícitos; porque os homens do mundo é que procuram todas estas coisas; mas
vosso Pai sabe que precisais delas. Buscai antes o seu reino, e estas coisas vos
serão acrescentadas. Não temas, pequeno rebanho; porque é do agrado de vosso
Pai dar-vos o reino.” – Jesus - (Lucas 12:20-32)
Hoje a lembrança de um dos
albergados da Casa do Caminho, mais valentes, mais destemidos que passou por
lá, foi o Manoel Sabiá, daremos o nome fictício, ao Idoso, na intenção de
evitar qualquer constrangimento por parte de seus familiares, ou mesmo pelo
fato de que a intenção dos relatos é respeitarmos o ser humano, naquilo que
possui de mais belo, honrado e justo.
Os sofrimentos lavaram seu corpo
e sua alma, mas, continuaram firmes, na esperança de amar e ajudar, sem nada
desejarem em troca, e, nunca retribuírem o mau recebido com o próprio mau. Fica
patente, a altivez da alma, apesar da pobreza material, o caráter não foi
corrompido pela soberba, pela estupidez e pela pobre vaidade humana.
Durante o tempo que viveu na Casa
do Caminho, Manoel sempre se posicionou como um soldado do exército brasileiro,
um verdadeiro guerreiro do servir e não de sê servido.
Quando jovem, morava num distrito
de Sousa, mais seu sonho era ser oficial do Exército, e, naquela época longínqua,
o quartel do Exercito mais próximo a Sousa (PB) era o da cidade de Caicó (RN). Para tornar realidade seu sonho, seus pais
realizam uma festa de despedida para a viagem que faria para Caicó. Familiares
e amigos se cotizaram e levantaram o dinheiro de sua viagem.
E Manoel, levava um saco de
roupas, alguns trocados minguados, uma galinha na farinha, sapatos emprestados,
bastante apertados, chorando, abraçando os pais, irmãos e amigos e a alma cheia
de esperança, afirmava em voz alta:
- Ouçam, voltarei a minha terra
como um Oficial.
Todos se emocionavam com as
palavras daquele jovem forte e bonito. Orgulho dos pais, pois, tratava-se de um
filho trabalhador e gentil.
Sua chegada ao quartel foi
comovente, recebido por um Sargento, explica que vem de Sousa e que estava de
posse de seus documentos e do retrato de sua família. Foi bem acolhido, e é
conduzido à sala de alistamento militar.
Vejam a surpresa que aguardava
Manoel, no questionário que deveria preencher com lápis na mão, percebeu que não
entendia nada do que estava escrito.
- Na verdade, era analfabeto, não
sabia nem escrever o próprio nome.
Foi um desconforto intimo, sua
cabeça girava ao ouvir as explicações do Sargento, seu choro partia de sua
alma. Seu honrado pai tinha economizado durante anos para lhe oportunizar e
concretizar seu sonho. O choro de desespero aumentava, dizia que não voltaria
para casa, nada amenizava sua dor. O Sargento se encheu de compaixão e relatou
o caso ao Comandante, que concordou com a idéia do Sargento de colocar um civil
para ajudar em alguns serviços, sem remuneração, até que sua aflição se esvaísse.
Contudo, Manoel passa dois anos
de sua vida, num quartel, sem ser soldado, tendo o novo comandante exigido sua
dispensa por motivo de transgredir o regulamento militar vigente.
Assim, Manoel retorna ao Lar, recebido
com alegria e lágrimas, contando estórias de soldado, todos maravilhados pelos
contos, fardado com roupas emprestadas pelos soldados e comunicando que, em
função do tempo de serviço, foi dada baixa no Exército.
Segundo Manoel, seu pai e sua mãe
morreram e nunca souberam do ocorrido em Caicó.
Entretanto, sua alma foi marcada,
sempre a noite, em preces, chorava, sem revolta, pelo que o destino tinha
proporcionado.
Muito tempo depois, com mais de
setenta anos, chega Manoel a nossa Casa, se dizia que fora do Exército, que nos
treinos chegava há ficarem vários dias sem comer, passava sede e ficava exausto
com a dureza dos treinos, informou que chegou a comer carne crua de aves.
Tinha um hábito estranho ao
acordar, motivo que gerou muitos desafetos, especialmente, em dois albergados, Antônio
e Vitoriano, todas as manhãs as cinco em ponto, desfilava no terraço da Casa,
tocando uma corneta invisível com um dedo na boca e o outro como se estiver
tocando um instrumento musical, o ritmo era realmente de uma música militar.
Após a corneta, a tropa já avisada que deveria levantar, ele iniciava uma
canção e batendo forte com o pé direito no chão, parecia mais que queria
afundar o chão. A música com sua voz de trovão, dizia assim:
“Soldado que vai a guerra
Não leva o que comer
Só leva a própria vida
“E essa mesma vai perder.”
Eram umas quatro voltas bradando
essa música, mãos em continências, parecia mais um pelotão marchando, estremecia
as paredes, pancada forte no chão, bem cadenciado até o final do terraço, contudo,
dois Idosos o aguardavam cada um com um cabo de vassoura, pedindo que parasse
ou iam resolver na violência.
Manoel respondia:
- “Nada impede o Exército de
marchar, nem a chuva, nem à noite, nem a tempestade, nada tememos, muito menos
dois velhos aleijados, sonolentos e assanhados.”.
Os dois Idosos, nesse cenário,
começavam a rir e até admiravam sua audácia, citação, determinação, disciplina,
intrepidez em servir ao Braço Forte e Mão Amiga.
Certa manhã chega à Casa do
Caminho, nosso irmão Wilson Dantas Pedrosa e começa um papo com Manoel,
relatando as cobras imensas, de mais de cinco metros de comprimento que matou e
que alegrava o quartel cantando e tocando sua sanfona.
No outro dia, Wilson traz uma
sanfona imensa para Manoel tocar, quando coloca a sanfona em Manoel, sua cabeça
fica abaixo da sanfona. Era grande e ele disse que não tocada na grande, mas
nos foles de oito baixos.
- Se é assim, não tem problema, trago
a de oito baixos. - Disse Wilson.
Novamente, persistente, vem
Wilson com o fole de oito baixos e entrega a Manoel.
Começou a examinar o fole, abre e
fecha, mas não consegue tocar, pois, precisa exercitar os dedos.
Wilson afirma que o fole é dele e
que pode exercitar a vontade, sendo a partir daquele dia mais um divertimento
para Manoel, que passou a admirar cada vez mais o gesto fraterno e amigo de
Wilson.
Outro fato interessante ocorreu
em uma visita dos Idosos ao sítio de Wilson, localizado depois de Aparecida (PB),
época da safra de manga, e, após o café da manhã, com café, leite, queijo,
bolacha e pão, saímos em direção aos pés de manga, quando chega um aviso de que
dos cinco sacos de manga colhidos, uma cobra enorme tinha chupado dois sacos de
manga.
Wilson dirige-se para seu Manoel
e pergunta:
- É melhor voltar Manoel?
-Certamente vocês não me
conhecem, fui treinado no Exército, vamos em frente.
Seu Gentil pondera:
- Seu Manoel, o senhor tomou café
agora, não será melhor espera o café esfriar?
Seu Manoel responde:
Tem razão, vamos aguardar um
pouco enquanto esfria o café,
Gentil sugere:
- Não é melhor tirar a camisa?
- Com certeza, esfriará mais
rápido. Responde Manoel.
Passado alguns minutos, todos em
silêncio, seu Manoel convoca aos presentes a enfrentar a cobra, partindo na
frente.
Era realmente bravo, valente, corajoso,
destemido. O argumento da cobra foi uma
sugestão de Wilson.
E a manhã foi maravilhosa sob as
sombras das mangueiras ao lado de um homem admirável.
Zelito Facundo ouviu, no
dormitório, um relato de seu Manoel para outro Idoso, quando no quartel, à
noite, em substituição a um soldado cansado, quando um vulto se aproxima de sua
guarda:
- Quem vem lá? - Ele com voz enérgica.
- Quem vem lá? Pare! Ou
vou atirar!
Engatilha a arma para disparar e o vulto
retorna.
No outro dia, soube que era o
comandante do quartel que estava testando sua conduta. Foi elogiado pela maneira
como se comportou.
São muitos os episódios de Manoel
e fica nossa admiração pelo Exército do Amor que hoje está alistado lá no Alto,
cuja sublime missão não será mais batalhas duras, odiosas, sanguinolentas daqui
da Terra, ao contrário, ocorrerá o fiel cumprimento do código celeste, Universal,
do Evangelho de Jesus.
Nosso parecer pressupõe um ser humano
muito acima da média, pois, desconhecia derrotas, incorporou em si um imenso
desejo de ser útil, de contribuir com o bem, salvaguardou sua ingenuidade na
operosidade e disciplina do trabalho.
Walter Sarmento de Sá Filho
Washington Marques (viu!?) admirando a
Casa do Caminho, à época, projetada no plano espiritual, hoje materializada por mãos que amam.
"Eu
vivo, mas já não sou eu; é Cristo que vive em mim. A minha vida presente, na
carne, eu a vivo na fé do Filho de Deus, que me amou e se entregou por
mim." Paulo.
Gálatas 2:20
"A caridade é sofredora, é benigna; a caridade não é
invejosa, não trata com leviandade, não se ensoberbece." - Paulo.
(I CORÍNTIOS, 13:4.)
"Que o Senhor
dirija os vossos corações para o amor de Deus e a paciência de Cristo."
2 Tessalonicenses 3:5