domingo, 5 de junho de 2016


PEDRO, O APÓSTOLO

 

25 de agosto de 1936

 

Enquanto a Capital dos mineiros, dirigida pelos seus elementos eclesiásticos, se prepara, esperando as grandes manifestações de fé do segundo Congresso Eucarístico Nacional, chegam os turistas elegantes e os peregrinos invisíveis. Também eu quis conhecer de perto as atividades religiosas dos conterrâneos de Augusto de Lima.

Na Praça Raul Soares, espaçosa e ornamentada, vi o monumento dos congressistas, elevando-se em forma de altar, onde os altos religiosos serão celebrados. No topo, a custódia, rodeada de arcanjos petrificados, guardando o símbolo suave e branco da eucaristia, e, cá em baixo, nas linhas irregulares da terra, as acomodações largas e fartas, de onde o povo assistirá, comovido, às manifestações de Minas católica.

Foi nesse ambiente que a figura de um homem trajado à israelita, lembrando alguns tipos que em Jerusalém se dirigem, freqüentemente, para o lugar sagrado das lamentações, aguçou a minha curiosidade incorrigível de jornalista.

- Um judeu?! – exclamei, aguardando as novidades de uma entrevista.

- Sim, fui judeu, há algumas centenas de anos – respondeu laconicamente o interpelado.

Sua réplica exaltou a minha bisbilhotice e procurei atrair a atenção da singular personagem.

- Vosso nome? – continuei.

- Simão Pedro.

- O Apóstolo?

E a veneranda figura respondeu afirmativamente, colando ao peito os cabelos respeitáveis da barba encanecida.

Surpreso e sedento da sua palavra, contemplei aquela figura hebraica, cheia de simplicidade e simpatia. Ao meu cérebro afluíam centenas de perguntas, sem que pudesse coordená-las devidamente.

- Mestre – disse-lhe, por fim -, Vossa palavra tem para o mundo um valor inestimável. A cristandade nunca vos julgou acessível na face da Terra, acreditando que vos conserváveis no Céu, de cujas portas resplandecentes guardáveis a chave maravilhosa. Não teríeis algumas mensagens do Senhor para transmitir à Humanidade, neste momento angustioso que as criaturas estão vivendo?

E o Apóstolo venerável, dentro da sua expressão resignada e humilde, começou a falar:

- Ignoro a razão por que revestiram a minha figura, na Terra, de semelhantes honrarias.

Como homem, não fui mais que um obscuro pescador da Galiléia e, como discípulo do Divino Mestre, não tive a fé necessária nos momentos oportunos. O Senhor não poderia, portanto, conferir-me privilégios, quando amava todos os seus apóstolos com igual amor.

- É conhecida, na história das origens do Cristianismo, a vossa desinteligência com Paulo de Tarso. Tudo isso é verdadeiro?

- De alguma forma, tudo isso é verdade – declarou bondosamente o Apóstolo. – Mas, Paulo tinha razão. Sua palavra enérgica evitou que se criasse uma aristocracia injustificável, que, sem ele, teria que desenvolver-se fatalmente entre os amigos de Jesus, que se haviam retirado de Jerusalém para as regiões da Batanéia.

- Nada desejais dizer ao mundo sobre a autenticidade dos Evangelhos?

- Expressão autêntica da biografia e dos atos do Divino Mestre, não seria possível acrescentar qualquer coisa a esse livro sagrado. Muita iniqüidade se tem verificado no mundo em nome do estatuto divino, quando todas as hipocrisias e injustiças estão nele sumariamente condenadas.

- E no capítulo dos milagres?

- Não é propriamente milagre o que caracterizou as ações práticas do Senhor. Todos os seus atos foram resultantes do seu imenso poder espiritual. Todas as obras a que se referem os Evangelistas são profundamente verdadeiras.

E, como quem retrocede no tempo, o Apóstolo monologou:

- Em Carfanaum, perto de Genesaré, e em Betsaida, muitas vezes acompanhei o Senhor nas suas abençoadas peregrinações. Na Samaria, ao lado de Cesaréia de Felipe, vi suas mãos carinhosas dar vistas aos cegos e consolação aos desesperados. Aquele sol claro e ardente da Galiléia ainda hoje ilumina toda a minha alma e, tantos séculos depois de minhas lutas no

mundo, ao lado de alguns companheiros procuro reivindicar para os homens a vida perfeita do Cristianismo, com o advento do Reino de Deus, que Jesus desejou fundar, com o seu exemplo, em cada coração...

- Os filósofos terrenos são quase unânimes em afirmar que o Cristo não conhecia a evolução da ciência grega, naquela época, e que as suas parábolas fazem supor a sua ignorância acerca da organização política do Império Romano: seus apóstolos falam de reis e príncipes que não poderiam ter existido.

- A ação do Cristo – retrucou o Apóstolo – vai mais além que todas as atividades e investigações das filosofias humanas. Cada século que passa imprime um brilho novo à sua figura e um novo fulgor ao seu ensinamento. Ele não foi alheio aos trabalhos do pensamento dos seus contemporâneos. Naquele tempo, as teorias de Lucrécio, expandidas alguns anos antes da obra do Senhor, e as lições de Filon em Alexandria, eram muito inferiores às verdades celestes que Ele vinha trazer à Humanidade atormentada e sofredora...

E, quando a figura venerada de Simão parecia prestes a prosseguir na sua jornada, inquiri, abruptamente:

- Qual o vosso objetivo, atualmente, no Brasil?

- Venho visitar a obra do Evangelho aqui instituída por Ismael, filho de Abraão e de Agar, e dirigida dos espaços por abnegados apóstolos da fraternidade cristã.

- E estais igualmente associado às festas do segundo Congresso Eucarístico Nacional? – perguntei.

Mas, o bondoso Apóstolo expressou uma atitude de profunda incompreensão, ao ouvir as minhas derradeiras palavras.

Foi quando, então, lhe mostrei o rico monumento festivo, as igrejas enfeitadas de ouro, os movimentos de recepção aos prelados, exclamando ele, afinal:

- Não, meu filho!... Esperam-me longe destas ostentações mentirosas os humildes e os desconsolados. O Reino de Deus ainda é a promessa para todos os pobres e para todos os aflitos da Terra. A Igreja romana, cujo chefe se diz possuidor de um trono que me pertence, está condenada no próprio Evangelho, com todas as suas grandezas bem tristes e bem miseráveis. A cadeira de São Pedro é para mim uma ironia muito amarga... Nestes templos faustosos não há lugares para Jesus, nem para os seus continuadores...

- E que sugeris, Mestre, para esclarecer a verdade?

Mas, nesse momento, o Apóstolo venerando enviou-me um gesto compassivo e piedoso, continuando o seu caminho, depois de amarrar, resignadamente, o cordão das sandálias.

 

Humberto de Campos

sábado, 4 de junho de 2016


PACIÊNCIA.

 

Espírito: EMMANUEL.

 

Onde estejas, apresentar o nome que te assinala, a ideia que te dirige, a roupa que te acolhe e os sinais que te identificam.

 

Em teu benefício próprio não olvides carregar onde fores a energia da paciência que te garanta a serenidade.

 

Se alguém te anuncia catástrofes iminentes, qual se trouxesse na boca o vozerio das trevas, ouça com paciência e perceberás que a vida permanece atuante, acima de todas as calamidades, à maneira do sol que brilha invariável, sobre todos os aguaceiros.

 

Quando a provação te visite, a modo de ventania destruidora, sofre com paciência e colherás dela renovado vigor semelhante à árvore que se refaz pela angústia da poda.

 

Diante do golpe que te alcança as fibras mais íntimas, suportam com paciência as dores do reajuste e cicatrizarão valorosamente as chagas do coração conquistando os louros da experiência.

 

Padeces inesperada injúria dos entes amados que te devem carinho, no entanto, passa por ela com paciência e, amanhã, ser-te-ão mais afeiçoados e mais amigos.

 

Tolera a deserção de companheiros queridos que te deixam nas mãos o sacrifício de duras tarefas acumuladas, contudo, prossegue com paciência no trabalho que o mundo te reservou e mais tarde, teus ideais e serviços se erigirão por alimento e refúgio em favor deles mesmos.

 

Irritação é derrota prévia.

Queixa é adiamento do melhor a fazer.

Reclamar é complicar.

Censurar é destruir.

 

Em todos os males que te firam, usa a dieta da paciência assegurando a própria restauração.

 

E toda vez que sejamos induzidos a condenar alguém por essa ou aquela falta, inventariemos nossas próprias fraquezas e reconheceremos de pronto que nos encontramos de pé, em virtude da paciência inexaurível de Deus.

sexta-feira, 3 de junho de 2016


CONVERSA DE COMPANHEIRO

 

Eis hoje, caro José,

Meu singelo parecer.

Em carta você me fala

Que só deseja morrer.

 

E anota com insegurança,

Dizendo espantado a mim:

— “Você me diga, Cornélio,

Se estou certo agindo assim.”

 

Tal assunto em sua idéia,

Tão lúcida quão travessa

Realmente não entendo

Como lhe vem à cabeça.

 

Posso afirmar-lhe, de pronto,

Na força de nossa fé : —

- Reajuste o próprio passo,

Não tente a morte, José.

 

Quem se esquece de viver,

Pensando em fim prematuro,

Acaba sem perceber

Caindo em salto no escuro.

 

Observe a Natureza:

Toda a vida se processa

Para serviço no tempo

Que não cogita de pressa.

 

O sol não registra idade,

A noite prepara o dia,

O fruto surge na hora,

Relógio não se abrevia.

 

Não falha a Obra de Deus

Cuja lei é a perfeição,

Todos temos lugar próprio,

Da estrela aos vermes do chão.

 

Morte, em si, é um velho marco

Na estrada de toda gente,

Aceitá-la é conformar se,

Provocá-la é diferente.

 

A Terra é um navio grande

Nas águas do Amor Divino,

 

Quem sai dele contra a ordem,

Noutro barco é clandestino.

E quem se faz clandestino,

No grau em que se subleva,

Encontra rudes lições

No caminho a que se leva.

 

Vivia pedindo a morte

Nossa amiga Dona Inês,

Acheia-a pior no Além,

Rogando um corpo outra vez.

 

Desanimou de viver

Nhô Nico da Tanajura,

Morreu mas vive isolado

Nas pedras da sepultura.

 

Xingando os filhos ingratos

Nhá Quina morreu aos poucos,

Mas vive cuidando agora

Dos netos muito mais loucos.

 

Por não suportar a nora,

Finou-se Olavo Vilela,

No Além não acha serviço

A não ser velar por ela.

 

Em não se ajustando ao genro,

Morreu Pio Avanhandava,

Hoje em dia quer ser filho

Do genro que detestava.

 

Por odiar a família

Morreu Marcelino Gaza,

Hoje, em luta, descobriu

Que está preso à própria casa.

 

Para fugir do trabalho

Finou-se o Juca Pulchério,

Mas hoje só sente paz

Se fica no cemitério.

 

Morreu Lino por pirraça

Contra a esposa Ana Sarmento,

Agora corre atrás dela,

Gritando arrependimento.

 

Conserve o seu próprio corpo,

É a medida que lhe peço;

Ele é seu campo de luta,

Sua enxada de progresso.

 

Não se descuide da vida

Nem viva no mundo às tontas,

A morte nos muda a casca

Mas não nos resolve as contas.

 

A morte que traz descanso,

Paz, reconforto, alegria

É aquela que nos procura

E chega sempre no dia.

 

RETRATOS DA VIDA

FRANCISCO CÂNDIDO XAVIER

DITADO PELO ESPÍRITO CORNÉLIO PIRES

quinta-feira, 2 de junho de 2016


Trabalho Divino

Maria Dolores

 

Escuta, alma querida e boa,

Perante as aflições que te espanquem

A vida,

Na prova que atordoa.

Há sofrimento, lágrima e tumulto,

Embora tolerando o impacto das trevas,

Busca enxergar o mecanismo oculto

Das tarefas de amor e redenção que

Levas!...

 

Deus clareia a razão

Aqui, ali, além,

Para que o nosso próprio coração

Revele por si mesmo a lei do bem...

 

Tens para dar, conheces para ver

e para dar e ver já podes discernir...

eis a missão que trazes por dever:

trabalhar, compreender, elevar,

construir!...

 

tudo o que existe e vibra

entre as forças do mundo,

tem no próprio destino o dom profundo

de ajudar e servir!

O sol gasta-se em luz a entregar-se de todo

 

E tanto ampara aos céus quanto às

Furnas de lodo...

O jardim despojado a refazer-se espera

Para dar-se de novo em nova primavera...

Toda árvore esquece o que sofre do homem

 

E apóia sem cessar aqueles que a

consomem!...

olha o minério arrebatado ao solo,

sem possibilidades de regresso.

Padece fogo ardente

A fim de assegurar constantemente

O esplendor do progresso.

 

Já consegues pensar que qualquer for que

Apanhas,

A mais singela e a mais descolorida,

É um sonho que arrancaste à natureza

Para adornar-te à vida?

Que modelas a enxada

E golpeias o chão,

Para que o chão te guarde a sementeira

E te forneça o pão?

 

Assim também por onde vás,

Ante assaltos, tragédias, ironias,

Tribulação ou desengano,

Quando as estradas do cotidiano

Surjam mais espinhosas ou sombrias,

Nada reclames, serve.

E nem reproves, ama!

Em toda parte a vida te reclama

Tolerância, alegria, esperança e

Bondade, inda que a dor te fira ou

Arrase os sonhos teus,

Porque o Céu te entregou a liberdade

De servir e elevar a Humanidade

Por trabalho de Deus.

 

Federação Espírita Brasileira

Rio de Janeiro - RJ 22.12.1972

quarta-feira, 1 de junho de 2016


Comecemos

Emmanuel

 

Se desejas integrar a fileira dos redentores do mundo, através da palavra escorreita e dos gestos brilhantes, não te esqueças da caridade ao próximo que se encontra mais próximo de ti.

Não esperes pelos quadros públicos de sofrimento para começar...

Recorda a casa em que nasceste, a oficina em que trabalhas, a instituição de fé religiosa a que te afeiçoas, a rua em transitas...

A caridade é uma bênção que cabe em toda parte e que pode exteriorizar-se do vaso de teu coração incessantemente...

Para teus pais:

- é respeito e carinho.

Para teu esposo:

- é renúncia e bondade.

Para tua companheira:

- é proteção e ternura.

Para teus filhos:

- é auxilio e entendimento.

Para teus irmãos:

- é concurso fraterno em todos os instantes.

Para o teu parente transviado:

- é socorro e cooperação.

Para o teu superior:

- é reverência e boa vontade.

Para o teu subalterno:

- é ajuda e orientação.

Para os associados de ideal ou de crença:

- é solidariedade.

Para o visitante que cultiva a maledicência:

- é tolerância e esclarecimento sem alarde.

Para que te insulta: - é o silêncio.

Para quem te persegue: - é a oração.

Para quem te calunia:

- é o esquecimento.

Para quem não te compreende:

- é amparo maior.

Para quem te despreza:

- é a compaixão que não se queixa.

Para quem te fere:

- é o perdão incondicional.

Para teu amigo:

- é a sinceridade sem afetação.

Para teu adversário:

- é a generosidade sem limites.

 

Não olvides que a oportunidade de trabalhar é a maior caridade que nós mesmos estamos recebendo do Senhor e, desse modo procuremos ajudar a todos os que nos cercam, facilitando-lhes a tarefa individual.

Não aguardes uma torrente de ouro para exercitar a divina virtude. Encetemos o sublime trabalho, espalhando a boa palavra e a gentileza fraterna, com aqueles que nos rodeiam de perto.

Ninguém auxiliará aos irmãos de longe, sem devotar-se ao soerguimento dos mais próximos.

Lembra-te, pois, daqueles que o Senhor te confiou na luta de cada dia e começaremos a plantação do amor imortal desde hoje.

 

Centro Espírita Luiz Gonzaga

Pedro Leopoldo – MG

16.02.1953