quarta-feira, 12 de dezembro de 2012

Reflexões Sobre a Tolerância

Reflexões Sobre a Tolerância



Desejo ainda que você seja tolerante;

não com os que erram pouco, porque isso é fácil,

mas com os que erram muito e irremediavelmente,

e que fazendo bom uso dessa tolerância,

você sirva de exemplo aos outros.


Vitor Hugo



Ainda restam muitas mostras de brutalidade na raça humana. Desde ambientes domésticos até as mais conturbadas relações internacionais, vemos comportamentos agressivos e violentos, e não somente produzindo ferimentos físicos, mas também, e com maior freqüência, gerando sérios danos emocionais e conseqüentemente espirituais.


Na base de todas essas ocorrências encontram-se ações humanas, o que nos leva a refletir no quanto ainda nos exige a tarefa de tolerar o outro! Quantas vezes, ainda, escorregamos em julgamentos e, por vezes, na mesma intransigência e violência, se não por atos, por palavras e pensamentos. Compreender o outro é sempre tão difícil. Afinal, por que ele tem que pensar de forma diferente? Por que tem que agir de uma forma que não me agrada? Por que tem tendências que eu abomino, não compreendo ou não aceito? São tantos os porquês que nos ocorrem em momentos de intolerância que por certo encheríamos várias páginas com eles.
Mas, o certo é que diferenças existem e precisamos aprender a ser e viver com tolerância, caso realmente aspiremos a ser dignos de nos dizermos cristãos.
Há alguns meses foi noticiado o caso de uma mulher acusada de adultério na Nigéria. Ela estava divorciada do primeiro marido e engravidou de um relacionamento posterior com outro homem. Segundo as leis vigentes naquela sociedade ela foi condenada a morte por apedrejamento. Cena idêntica nos relata o Evangelho de João:


“Jesus, entretanto, foi para o monte das Oliveiras. De madrugada, voltou novamente para o templo, e todo o povo ia ter com ele; e, assentado, os ensinava. Os escribas e fariseus trouxeram à sua presença uma mulher surpreendida em adultério e, fazendo-a ficar de pé no meio de todos, disseram a Jesus: mestre, esta mulher foi apanhada em flagrante adultério. E na lei nos mandou Moisés que tais mulheres sejam apedrejadas; tu, pois, que dizes? Isto diziam eles tentando-o, para terem de que o acusar. Mas Jesus, inclinando-se, escrevia na terra com o dedo. Como insistissem na pergunta, Jesus se levantou e lhes disse: Aquele dentre vós que estiver sem pecado seja o primeiro que lhe atire a pedra. E tornando a inclinar-se, continuou a escrever no chão. Mas, ouvindo eles esta resposta e acusados pela própria consciência, foram-se retirando um por um, a começar pelos mais velhos até os últimos, ficando só Jesus e a mulher no meio onde estava. Ergueu-se Jesus e não vendo a ninguém mais além da mulher, perguntou-lhe:


– Mulher, onde estão aqueles teus acusadores? Ninguém te condenou? Respondeu ela: Ninguém, Senhor! Então lhe disse Jesus: Nem eu tampouco te condeno; vai e não peques mais.”


É a velha intolerância, matando pessoas e ferindo sentimentos nos tempos atuais, como matava e feria há dois mil anos. E os ensinos de Jesus, esquecidos.
A passagem da mulher adúltera me fala de tolerância, de comportamento tolerante com o próximo. O Mestre, enquanto ensinava, foi confrontado e atacado pela mesma intransigência e intolerância que os levava a acusar a mulher. Não toleravam os pensamentos e as atitudes de Jesus e o agrediam. Ante a primeira agressão, Jesus mostrou-se passivo. Então eles insistem até obterem uma reação - a resposta do atirem a primeira pedra quem estiver sem pecado.


Essa resposta traz a noção de igualdade, compreendida não só como não sermos puros isentos de erro, mas como seres que em situações absolutamente iguais, idênticas, tanto de ordem moral, material, mental, física, espiritual e evolutiva, procederíamos do mesmo modo, o que lhes retira a capacidade de condenar. Assim são as leis da matéria: em iguais condições os elementos químicos e físicos reagem da mesma forma; assim também as leis que regem o plano mental e as que vigoram nos domínios do Espírito, pois não há leis na Natureza que se contradigam umas as outras. Talvez por isso narra João que os velhos – ou os mais experientes e capazes de compreender esse conceito – foram os primeiros a se retirar, acusados pela própria consciência que os lembrava da lei de igualdade. Ao responder-lhes Jesus exemplifica uma conduta tolerante ante aqueles que os confrontavam. Aliás, note-se que ele deixa claro que a passividade não é forma de tolerância, pois ela permite que a ação equivocada perdure.
Ao responder a segunda investida, dá exemplo de tolerância inspirada pela bondade, ou seja, a não olhar indiferente, nem a condenar o proceder alheio quando ele seja incorreto, inconveniente e possa lesar interesses morais e materiais, próprios ou estranhos, individuais ou coletivos, mas alertar o engano da conduta de forma caridosa, sem revidar agressão, lembrando para o futuro um comportamento mais saudável.


Não temos o direito de violentar a consciência de outrem, impondo-lhes maneiras de pensar e viver. A justificativa do anseio de ampliar ou desenvolver a consciência de alguém não serve, nem autoriza o uso da violência física ou verbal.


A tolerância não consiste na indiferença. Pode e deve a criatura ser tolerante em face das opiniões e condutas alheias, por mais opostas que sejam às suas próprias; ela prescreve o respeito às crenças, aos gostos e tendências dos outros, porém não nos impõe a omissão, o silêncio diante do que nos desagrade, ou seja compreendido de outro modo. O indivíduo tolerante exterioriza suas opiniões, eximindo-se de ser violento, pois compreende a necessidade de considerar os outros como a si mesmo e a fazer-lhes aquilo lhe possa convir. Se já consegue olhar um pouco além das ilusões da matéria e compreende a vida e a lei de evolução, sabe que:

“Na fonte, há lama; a rosa tem espinho;

O sol na eclipse é sol obscurecido;

Na flor também o verme faz seu ninho;

Erram todos, eu mesmo errei já tanto",


William Shakespeare – Soneto 35.



Ana Cristina Vargas - Delfos


terça-feira, 11 de dezembro de 2012

Religiões Irmanadas

Religiões Irmanadas



Comentávamos a conveniência de se irmanarem as religiões, em favor da concórdia no mundo, quando meu amigo Tertuliano da Cunha, desencarnado no Pará, falou entre brejeiro e sentencioso:

- Gente, é necessário´pensar nisso com precaução. Idéia religiosa é degrau da verdade
e o discernimento varia de cabeça para cabeça. Exaltam vocês a excelência de larga iniciativa, em que os múltiplos templos sejam convocados à integração num plano único de atividade; entretanto, não será muito cedo para semelhante cometimento?



Porque a pergunta vagueasse no ar, o experiente sertanista piscou os olhos, sorriu
malicioso e aduziu:


- Isso me faz lembrar curiosa fábula que me foi relatada por velho índio, numa de
minhas excursões no Xingu.



E contou:



- Reza uma lenda amazônica que, certa feita, a onça, muito bem posta, surgiu na selva,
imensamente transformada. Ela, que estimava a astúcia e a violência, nas correrias contra animais indefesos, escondia as garras tintas de sangue e dizia acalentar o propósito de reunir todos os bichos no caminho da paz. Declarava haver entendido, enfim, que Deus é o Pai de todas as criaturas e que seria aconselhável que todas o adorassem num só verbo de amor. Confessava os próprios erros. Reconhecia haver abusado da inteligência e da força. Despertara o terror e a desconfiança de todos os companheiros, quando era seu justo desejo granjear lhes a simpatia e a veneração. Convertera-se, porém, a princípios mais elevados. Queria reverenciar o Supremo Senhor, que acendera o Sol, distribuíra a água e criara o arvoredo, animada de intenções diferentes. Para isso, convidava os irmãos à unidade. Poderiam, agora, viver todos em perpétua harmonia, porquanto, arrependida dos crimes que cometera, aspirava somente a prestigiar a única. Renunciaria ao programa de guerra e dominação. Não - mais perseguiria ou injuriaria a quem quer que fosse. Pretendia simplesmente estabelecer na floresta uma nova ordem, que a todos levasse a se prosternarem perante Deus, honrando a fraternidade. Solenizando o acontecimento, congraçar-se-ia a família do labirinto verde em grande furna, para manifestações de louvor à Providência Divina. Macacos e cervos, lebres e pacas, tucanos e garças, patos e rãs, que oravam, em liberdade, a seu modo, escutaram o nobre apelo, mas duvidaram da sinceridade de tão alto discurso. Todavia, apareceram serpentes e raposas, aranhas e abutres, amigos incondicionais do ardiloso felídeo, aderindo-lhe ao brilhante projeto. E tamanhos foram os argumentos, que a bicharada mais humilde se comoveu, assentando, por fim, que era justo aceitar-se a proposta feita em nome do Pai Altíssimo. Marcado o dia para a importante assembléia, todos se dirigiram para a loca escolhida, repentinamente transfigurada em santuário de flores. Quando a cerimônia ia a meio caminho, com as raposas servindo de locutoras para entreter os ouvintes, as serpentes deitaram silvos estranhos sobre os crentes pacatos, as aranhas teceram escura teia nos orifícios do antro, embaçando o ambiente, os abutres entupiram a porta de saída, e a onça, cruel, avançou sobre as presas desprevenidas, transformando a reunião em pavoroso repasto... E os bichos que sobraram foram escravizados na sombra, para banquete oportuno...



Nosso amigo fez longa pausa e ajuntou:



- A união de todos os credos é meta divina para o divino futuro, mas, por enquanto, a
Terra ainda está fascinada pelo critério da maioria. Como vemos, é possível trabalhar pela conciliação dos religiosos de todas as procedências; no entanto, segundo anotamos, será preciso enfrentar a onça e os amigos da onça... Onde o melhor caminho para a melhor solução?...

Sorr
imos todos, desapontados, mas não houve quem quisesse continuar o exame do assunto, após a palavra do engraçado e judicioso comentarista.



Irmão X, psicografia de Francisco Cândido Xavier

Fonte: http://www.caminhosluz.com.br


segunda-feira, 10 de dezembro de 2012

Viveremos Sempre

Viveremos Sempre



Filho, não humilhes os ignorantes e os fracos, todos somos viajores da vida eterna. Do berço ao túmulo atravessamos apenas um ato de imenso drama de nossa evolução para Deus.


Por vezes, o senhor veste o traje pobre do operário humilde para conhecer-lhe as duras necessidades, e o operário humilde veste o suntuoso traje do senhor para conhecer-lhe as duras obrigações na tarefa administrativa.

Quando um homem menospreza as oportunidades de tempo e dinheiro que o Céu lhe confia, volta ao mundo em outro corpo, experimentando a escassez de tudo.


Não escarneças do aleijado. Tua boca poderá cobrir-se de cicatrizes.

Não recolhas os bens que te não pertencem. Teus braços são suscetíveis de caírem paralíticos, sem que possas acariciar o que é teu provisoriamente.

Não caminhes ao encontro do mal, porque o mal dispõe de recursos para surpreender-te, talvez com a perturbação e com a morte.


Ajuda e passa adiante, expandindo um coração compassivo para com todas as dores e cheio de amor e perdão para todas as ofensas.

Quando não puderes louvar, cala-te e espera, porque a língua viciada na definição dos defeitos alheios regressa ao mundo em plena mudês.

Quem chega através de um berço risonho, na maioria dos casos é alguém que torna ao campo da carne a fim de restaurar-se e aprender.

Assim como a flor se destina ao fruto que alimenta, o teu conhecimento deve produzir a bondade que constrói e santifica.


Lembra-te de que longo é o caminho e que necessitaremos trocar de corpo. Na direção da vitória final, tantas vezes quantas forem precisas, até que a indispensabilidade da vestimenta física se desvaneça com as encarnações sucessivas...

Colheremos da sementeira que fizermos. Não desprezes, assim, os menos felizes.

O malfeitor e o vagabundo que se deixaram escravizar pelos demônios da preguiça são igualmente nossos irmãos. Ajudemo-los, através de todos os meios ao nosso alcance.


Nem sempre o verdadeiro infortunado é aquele que se debate num leito de sofrimento. Não olvides o infeliz bem trajado que cruza as avenidas da ignorância, sem paz e sem luz.


Filho meu, voltaremos ainda a terra, provavelmente, muitas vezes... O serviço de redenção assim o exige. Ama a todos. Auxilia indistintamente. Semeia o bem, à margem de todas as estradas.


Recorreremos ao amparo de muitos. É da Lei do Senhor que não avancemos sem os braços fraternos uns dos outros.


Prepara, desde agora, a colaboração de que necessitarás, a fim de prosseguirmos, em paz, montanha acima! Se irmão de todos, para que te sintas, desde hoje, no centro da grande família humana, e o Senhor Supremo te abençoará.



Néio Lúcio


domingo, 9 de dezembro de 2012

Na Hora do Toque

Na Hora do Toque

O toque é a forma mais comum de verificação da verdade. Usa-se o toque na Medicina, na Agricultura, na Joalheria — onde é tão conhecida a função da pedra de toque — e praticamente em todas as atividades humanas. Foi pelo toque dos dedos nas chagas que Tomé reconheceu a legitimidade da aparição de Jesus ressuscitado. No Espiritismo a pedra de toque é a obra de Kardec.
Mas porque essa obra e não outra? É bom que se deixe bem esclarecido esse porquê, pois há multas pessoas que não entendem a razão disso e acham que se dá preferência a Kardec por motivos emocionais e até por fanatismo. Vamos tentar esclarecer o assunto da maneira mais rápida e racional.
1.º) A obra de Kardec não é pessoal, não é só dele. Era preciso alguém responder pela obra. O Prof. Denizard Rivail, como se sabe, resolveu assumir essa responsabilidade e assinou-a com um pseudônimo: Allan Kardec, nome que havia possuído em encarnação anterior, quando sacerdote druida, entre os celtas.
A obra é dos Espíritos Superiores da luminosa falange do Consolador ou Espírito da Verdade, que Jesus prometeu enviar à Terra quando os homens estivessem aptos para compreender a sua doutrina em essência. Por isso Kardec deu ao livro básico da doutrina o título de O Livro dos Espíritos e à própria doutrina o nome de Espiritismo. Por isso também os demais livros da Codificação trazem como subtítulo esta expressão: Segundo o Espiritismo, ou seja, de acordo com a Doutrina dos Espíritos.
A doutrina, portanto, não é de Kardec, mas dos Espíritos Superiores que a revelaram a Kardec. Não obstante, Kardec fez a sua parte, quer através das perguntas que fazia aos Espíritos, quer através dos comentários explicativos que escreveu em todos esses livros. Esses comentários foram sempre submetidos por Kardec ao exame dos Espíritos, que os aprovavam ou emendavam. Kardec submetia tudo ao exame da razão, realizando um trabalho de cerca de quinze anos, sempre assistido pelos Espíritos Superiores dirigidos pelo Espírito da Verdade.
2.º) Desde 1857, quando foi publicado O Livro dos Espíritos, até hoje, nenhum dos princípios do Espiritismo foi desmentido pela Ciência ou pela Filosofia. Pelo contrário, todos eles têm sido sistematicamente confirmados por ambas. Quanto à Religião, nunca teve condições para contradizer o Espiritismo de maneira positiva, tentando sempre fazê-lo de maneira autoritária ou dogmática, sempre no interesse particular dos princípios de cada seita.
Hoje o avanço das Ciências e da Filosofia confirma de maneira inegável e impressionante a legitimidade da Doutrina Espírita. As descobertas mais recentes da Parapsicologia, da Física e da Biologia nada mais fazem do que comprovar a verdade dos princípios espíritas, sem que os investigadores tivessem essa intenção. Até mesmo quando pensam haver negado o Espiritismo, os investigadores, sem o saber, o estão comprovando. Isso prova a solidez da obra de Kardec.
3.º) A Bíblia, livro religioso dos judeus, anunciou a vinda de Jesus. Os Evangelhos, que formam o livro religioso do Cristianismo, anunciaram a vinda do Espírito da Verdade. Os Espíritos Superiores que hoje se manifestam são unânimes em afirmar que Kardec foi o discípulo de Jesus enviado à Terra para realizar a codificação do Espiritismo, doutrina que representa a continuação histórica do Cristianismo e restabelece os ensinos do Cristo em espírito e verdade.
As reformas religiosas por que passam hoje as Igrejas estão se processando de acordo com a orientação dada pelos princípios espíritas. As próprias pesquisas da Astronáutica, a ciência mais audaciosa do nosso tempo, estão confirmando o que os Espíritos disseram a Kardec sobre os mundos do Espaço, a infinitude do Universo, a inexistência do vácuo, a variedade infinita das formas da matéria e assim por diante.
4.º) Quanto mais avança o Conhecimento, mais se vão descobrindo as relações da obra de Kardec com as alegorias e simbologias religiosas da chamada Sabedoria Antiga, das mais velhas religiões da Índia, da China, do Egito, da Babilônia e assim por diante. Com tudo isso, o Espiritismo se confirma dia a dia como a doutrina do futuro. Ainda há pouco os jornais e revistas do mundo inteiro noticiaram que os cientistas soviéticos, os mais materialistas do mundo, viram-se obrigados a discutir a obra de Kardec num grande simpósio científico realizado na Rússia, e isso em virtude das recentes descobertas realizadas por eles na investigação da Física e da Biologia, com referência à antimatéria e ao corpo energético do homem, ou corpo bioplasmático, que na verdade confirma a teoria do perispírito ou corpo semimaterial do homem, que é um dos princípios fundamentais do Espiritismo. Nenhuma outra doutrina, em todo o mundo, tem recebido tão ampla e decisiva confirmação das pesquisas científicas modernas.
5.º) No campo da Filosofia passa-se a mesma coisa. A corrente filosófica que caracteriza o nosso século, a das chamadas Filosofias da Existência, não obstante suas diversas ramificações, confirmam no geral a teoria espírita da natureza transcendente do homem. E por outro lado seguem o caminho do Espiritismo no estudo e na investigação da natureza humana, partindo do homem na existência para chegar à compreensão progressiva dessa natureza. Tudo converge, no pensamento atual, para a comprovação da legitimidade da obra de Kardec.
Diante desse panorama positivo, qualquer obra que pretenda superar Kardec ou subestimar a Doutrina Espírita precisa ser submetida à prova do toque.
E essa prova só pode ser feita de duas maneiras: de um lado, conferindo-se a pretensa superação com a obra de Kardec para verificar-se qual das duas está mais coerente e apresenta maior coesão, maior unidade e firmeza nos seus princípios; de outro lado, conferindo-se, como recomenda o próprio Kardec, os princípios da pretensa superação com as exigências do pensamento atual em todos os campos de nossa atividade mental.
A obra de Kardec tornou-se, após um século de sua negação e rejeição pelos adversários, na pedra de toque da legitimidade das novas obras e novas teorias que vão surgindo no mundo. É por isso que essa obra — a obra de Kardec — oferece-nos os elementos necessários a uma crítica válida e a uma apreciação verdadeira das novas doutrinas que pretendem modificá-la ou superá-la. Se alguém nos apresentar outra obra em melhores condições do que essa, para servir de pedra de toque, estaremos prontos a trocar a pedra. Mas enquanto a obra de Kardec continuar nessa posição, não temos razão para substituí-la.
Convém lembrar ainda este ponto importante: a falência total ou parcial da obra de Kardec representará a falência total ou parcial dos Espíritos Superiores, particularmente do Espírito da Verdade, e conseqüentemente a falência dos ensinos do Cristo.
Isso não quer dizer que o Espiritismo seja uma doutrina cristalizada, incapaz de evoluir e se desenvolver. Quer dizer apenas que o Espiritismo realizou o toque da verdade na cultura humana, tocou nos pontos essenciais da comprovação da realidade universal pelo homem. Seus princípios fundamentais são realmente inabaláveis, mas estão sujeitos a desenvolvimentos que se darão de acordo com a evolução do homem, que progride sem cessar e aumenta constantemente a sua capacidade de compreender melhor a natureza humana, o mundo e a vida.
José Herculano Pires

Do livro A Pedra e o Joio

sábado, 8 de dezembro de 2012

Enredamentos Perigosos

Enredamentos Perigosos

Toda obra do Bem, no delineamento de propósitos, é nobre e transcendente, esmaecendo porém, quando se corporifica mediante a ação humana.

Sensibilizado pelos ideais de engrandecimento espiritual, o indivíduo emociona-se e procura entregar-se completamente, sonhando em tornar-se o instrumento da inspiração superior e, à vezes, consegue-o.

No entanto, porque é Espírito em rudes provas, embora os sentimentos que o animam, imprime as dificuldades pessoais, colocando sombra e empeços no labor a que se entrega.

Assim sendo, é compreensível que defrontemos no trigal dourado o escalracho infeliz, e na claridade do dia triunfante a nuvem carregada de sombras a impedir-lhe a irradiação da luz.

A Terra ainda não é o habitat, mas o educandário de homens e mulheres em lutas interiores, tentando arrancar a ganga externa para que brilhe a gema pura que lhe jaz no interior aguardando o momento de desvelar-se.

Valiosos e digno de encômios esse esforço hercúleo pela auto-superação, quando se constata o expressivo número daqueles que se escravizam aos comprometimentos torpes quão criminosos, que lhes exigirão oportuna reparação penosa.

O Senhor da Vinha não aguarda que venham cooperar com Ele os trabalhadores destituídos de mazelas ou imperfeições, pois que esses são raros, por isso aceita todos quantos despertam para a sua mensagem e se dispões a servi-lO.

Jesus conhecia a fraqueza moral de Pedro, todavia, convidou-o para o banquete da Boa Nova.

Francisco Bernardone vivia uma existência frívola e atormentada; apesar disto, doou-se, e, superando-se, tornou-se Sol medieval a clarear o futuro da humanidade.

Maria de Magdala, mesmo depois de O seguir, não ficou livre da suspeita nem da crítica severa do grupo no qual se movimenta.

Jesus aceitou-os a todos e transformou-os com o tempo em pilares da sua doutrina.

Descobrir o lírio no pantanal e a estrela além da tormenta constitui desafio para quem se candidata ao crescimento interior.

Nesse mister, surgem enredamentos perigosos, que complicam a marcha e dificultam a ascensão dos obreiros.

Dentre outros, a censura mórbida, constante, e a intriga perversa, intoxicam as melhores intenções e asfixiam muitos ideais em desenvolvimento.

São responsáveis pela crueldade da destruição de obras abençoadas e de esforços relevantes que são vencidos.

O cupim perseverante vence a madeira que sucumbe ao seu trabalho insensível.

Assim é a ação da maledicência impiedosa e insistente.

Para romper-se essa rede constritora, é necessário que o amor se compadeça do vigia dos atos alheios sempre pronto e a zurzir o látego, como se fosse inatacável.

Não te deixes contaminar pelo pessimismo nem pela censura contumaz que te tragam ao coração.

Tem paciência e dá-te conta que o acusador gratuito não ama, não coopera, apenas cria embaraços.

Ajuda em silêncio e confia em Deus, fazendo a tua parte da melhor forma ao teu alcance.

É mais valioso que teu próximo esteja tentando agir bem e auxiliar, apesar dos erros que comete, do que se estivesse no outro lado, entre os desequilibrados que aguardam a tua ajuda.

Viver em harmonia em um meio social - seja qual for, já que em todos eles existem dificuldades a vencer - constitui desafio para a evolução.

Ampara, portanto, o teu irmão que pensa em ser útil e ainda não o consegue, ao invés de hostilizá-lo, combatê-lo, semeares espinhos por onde ele segue ao levá-lo a julgamento público arbitrário pelos contumazes desocupados que se contentam em demolir.
Joanna de Ângelis
Do livro: Fonte de Luz, Médium: Divaldo Pereira Franco

sexta-feira, 7 de dezembro de 2012

A Psicologia da Felicidade

 
A Psicologia da Felicidade

Depois de quase trinta anos cuidando de pacientes deprimidos, o psicólogo Martin Seligman, de 61 anos, professor da Universidade da Pensilvânia, nos Estados Unidos e também ex-presidente da Associação Americana de Psicologia, resolveu inverter a situação, isso porque “sabia-se muito a respeito da depressão, mas quase nada sobre a essência comum das pessoas felizes”¹ –, declara Seligman. Com essas idéias na cabeça e diante de um teclado, Seligman escreveu seu novo livro Felicidade Autêntica (Editora Objetiva), desta vez para falar da “psicologia positiva”; o resultado foi um sucesso.


A “psicologia positiva” tem como objetivo determinar o valor das emoções boas no equilíbrio físico e mental e foi criada há cerca de vinte anos, por um grupo de psicólogos e psiquiatras, entre eles, o psicólogo Martin Seligman.


Como dizia o poeta Vinicius de Moraes (1913-1980), “é melhor ser alegre do que triste”; é verdade, os felizes têm pressão arterial mais baixa e sistema imunológico mais ativo. O Ministério da Saúde divulgou o relatório de 2001 com as 100 principais causas de morte divididas em faixas etárias e o resultado é surpreendente. Na faixa etária de 45 a 64 anos a hipertensão arterial ficou em quinto lugar com 6.697 mortes; na faixa etária de mais de 64 anos a hipertensão arterial ficou em sétimo lugar com 16.086 mortes.²


Os felizes vivem mais? Essa pergunta quem vai responder é o dr. Seligman:
“O estudo mais notável feito até hoje sobre felicidade e longevidade analisou o cotidiano de 180 freiras. Todas tinham a mesma dieta, leve e balanceada, e estavam livres, é claro, de drogas, álcool e cigarro. Como também convém a freiras, elas não eram suscetíveis a doenças sexualmente transmissíveis. Pois bem, mesmo assim, foi constatada uma diferença sensível de longevidade entre as mais e as menos alegres. Entre as primeiras, 90% ultrapassaram os 80 anos. Do outro grupo, apenas 34% chegaram a essa idade”.¹


E o dinheiro traz felicidade? Com a palavra novamente o dr. Seligman:
“...Uma pesquisa baseada na lista elaborada pela revista Forbes das 400 pessoas mais ricas dos Estados Unidos constatou que, elas não são mais felizes que as de classe média. A riqueza tem uma correlação surpreendentemente baixa com o nível de felicidade. Os ricos são, em geral, só um pouco mais felizes que os pobres. Nos Estados Unidos, enquanto a renda aumentou 16% nos últimos trinta anos, o número de indivíduos que se consideram muito felizes caiu de 36% para 26%”.¹
E para reforçar esta idéia o dr. Seligman complementa:
“...Você me perguntou sobre a relação entre felicidade e dinheiro. Pois bem: um estudo feito com ganhadores de gordos prêmios de loteria revelou que, passada a euforia causada pela entrada de uma grande soma de dólares, todos retornaram a seu nível básico de felicidade”.¹
Kardec não podia deixar um assunto como esse fora dos livros básicos doutrinários, daí o seu comentário:


“...Para a maioria dos homens, o dinheiro tem ainda irresistível atrativo e bem poucos compreendem a palavra supérfluo, quando de suas pessoas se trata. Por isso mesmo, a abnegação da personalidade constitui sinal de grandíssimo progresso.”³


E complementa:


“Dar-se-ia o inverso, se a opinião geral fustigasse o vício dourado, tanto quanto o vício em andrajos; mas, o orgulho se mostra indulgente para com tudo o que o lisonjeia. Século de cupidez e de dinheiro, dizeis. Sem dúvida; mas por que deixastes que as necessidades materiais sobrepujassem o bom senso e a razão? Por que há de cada um querer elevar-se acima de seu irmão? Desse fato sofre hoje a sociedade as conseqüências.”
Pelo visto, dinheiro misturado com uma boa dose de egoísmo e orgulho se transforma em um poderoso tóxico para a alma. Pois é, dinheiro é muito bom com bom-senso, razão e uma boa dose de altruísmo. O dinheiro não é tudo; parece, mas não é. Muitos pensam que só os ricos podem ajudar os pobres e por isso não fazem nada para minorar o sofrimento alheio. Leia o que diz Kardec:


“...Aliás, será só com o dinheiro que se podem secar lágrimas e dever-se-á ficar inativo, desde que se não tenha dinheiro? Todo aquele que sinceramente deseja ser útil a seus irmãos, mil ocasiões encontrará de realizar o seu desejo. Procure-as e elas se lhe depararão; se não for de um modo, será de outro, porque ninguém há que, no pleno gozo de suas faculdades, não possa prestar um serviço qualquer, prodigalizar um consolo, minorar um sofrimento físico ou moral, fazer um esforço útil. Não dispõem todos, à falta de dinheiro, do seu trabalho, do seu tempo, do seu repouso, para de tudo isso dar uma parte ao próximo? Também aí está a dádiva do pobre, o óbolo da viúva.”


Outros associam felicidade a poder de compra. Será? Com a palavra o dr. Seligman:
“...Uma pesquisa realizada recentemente abordou um universo de mais de 1000 pessoas em quarenta países. Os responsáveis cruzaram o nível de satisfação pessoal com o poder de compra correspondente a cada lugar. O resultado trouxe obviedades e surpresas. Numa escala de 10 pontos, a nação de pessoas mais felizes e satisfeitas é a Suíça. Os Estados Unidos estão em sexto lugar. Já o Brasil aparece num surpreendente décimo lugar, à frente da Itália, um país rico, onde as pessoas têm um poder de compra quase quatro vezes maior. Isso significa que os brasileiros têm particularidades que contrariam a crença de que felicidade está necessariamente associada a mais dinheiro”.¹


Se não é o sonho de consumo o ideal para a felicidade – que o digam os brasileiros – seria então a beleza física?


“A beleza física certamente traz vantagens adicionais. Mas o fato é que a boa aparência exerce um efeito muito pequeno sobre a felicidade. Marilyn Monroe, para ficar num exemplo óbvio, era bela e profundamente infeliz”.¹
Depois do que disse o dr. Seligman, vale a pena conferir o que diz os Espíritos superiores a Kardec:


“O novo corpo que ele (Espírito) toma nenhuma relação tem com o que foi anteriormente destruído. Entretanto, o Espírito se reflete no corpo. Sem dúvida que este é unicamente matéria, porém, nada obstante, se modela pelas capacidades do Espírito, que lhe imprime certo cunho, sobretudo ao rosto, pelo que é verdadeiro dizer-se que os olhos são o espelho da alma, isto é, que o semblante do indivíduo lhe reflete de modo particular a alma. Assim é que uma pessoa excessivamente feia, quando nela habita um Espírito bom, criterioso, humanitário, tem qualquer coisa que agrada, ao passo que há rostos belíssimos que nenhuma impressão te causam, que até chegam a inspirar-te repulsão. Poderias supor que somente corpos bem moldados servem de envoltório aos mais perfeitos Espíritos, quando o certo é que todos os dias deparas com homens de bem, sob um exterior disforme. Sem que haja pronunciada parecença, a semelhança dos gostos e das inclinações pode, portanto, dar lugar ao que se chama “um ar de família.”6
É verdade que “as aparências enganam”; o corpo é como um espelho onde vemos o reflexo da realidade espiritual, como se fosse pincelado por um pintor impressionista, isto é, sobretudo pelo interesse em efeitos fugazes de luz e movimento, despreocupação com contornos, apesar da aversão aos tons sombrios.


E continua o dr. Seligman:


“A depressão é dez vezes mais freqüente hoje do que era em 1960. Ela também ataca cada vez mais cedo. Acredito que o que aconteceu foi um excesso de confiança nos atalhos que prometem a felicidade imediata: drogas, consumismo e sexo casual, entre outros exemplos. Tudo isso é fruto do narcisismo. E o narcisismo pode levar à depressão. Preocupar-se demais consigo próprio só faz intensificar tendências depressivas. Os profissionais da auto-ajuda vivem apregoando que todo mundo deve ‘entrar em contato com seus sentimentos’. Ora, há limite para isso. Talvez fôssemos mais felizes se nos preocupássemos mais com o outro”.¹
A conclusão do dr. Seligman é calcada no puro bom-senso e eivada de humanismo cristão e não difere das palavras de Kardec, que diz:
“A sublimidade da religião cristã está em que ela tomou o direito pessoal por base do direito do próximo. ”




E mais adiante:


“Dentre os vícios, qual o que se pode considerar radical?


Temo-lo dito muitas vezes: o egoísmo. Daí deriva todo mal. Estudai todos os vícios e vereis que no fundo de todos há egoísmo. Por mais que lhes deis combate, não chegareis a extirpá-los, enquanto não atacardes o mal pela raiz, enquanto não lhe houverdes destruído a causa. Tendam, pois, todos os esforços para esse efeito, porquanto aí é que está a verdadeira chaga da sociedade. Quem quiser, desde esta vida, ir aproximando-se da perfeição moral, deve expurgar o seu coração de todo sentimento de egoísmo, visto ser o egoísmo incompatível com a justiça, o amor e a caridade. Ele neutraliza todas as outras qualidades.”


Se você que ser feliz entenda que “FORA DA CARIDADE NÃO HÁ SALVAÇÃO” e SORRIA, você está a caminho da felicidade!

Bernardino da Silva Moreira - RIE