domingo, 6 de fevereiro de 2011

Ecologia e Espiritismo


Ecologia e Espiritismo

 

É urgente que o movimento espírita absorva e contextualize, à luz da Doutrina, os sucessivos relatórios científicos que denunciam a destruição sem precedentes dos recursos naturais não-renováveis, no maior desastre ecológico de origem antrópica da história do planeta.

Os atuais meios de produção e de consumo precipitaram a humanidade na direção de um impasse civilizatório, onde a maximização dos lucros tem justificado o uso insustentável dos mananciais de água doce, a desertificação do solo, o aquecimento global, a monumental produção de lixo, entre outros efeitos colaterais de um modelo de desenvolvimento “ecologicamente predatório, socialmente perverso e politicamente injusto”.

Na pergunta 705 de “O Livro dos Espíritos”, no capítulo que versa sobre a Lei de Conservação, Allan Kardec indaga: “Por que nem sempre a terra produz bastante para fornecer ao homem o necessário?”, ao que a Espiritualidade responde: “É que, ingrato, o homem a despreza! Ela, no entanto, é excelente mãe. Muitas vezes, também, ele acusa a Natureza do que só é resultado da sua imperícia ou da sua imprevidência. A terra produziria sempre o necessário, se com o necessário soubesse o homem contentar-se” (...).

É evidente que em uma sociedade de consumo, nenhum de nós se contenta apenas com o necessário. A publicidade se encarrega de despertar apetites vorazes de consumo do não-necessário – daquilo que é supérfluo, descartável, inessencial – renovando a cada nova campanha a promessa de felicidade que advém da posse de mais um objeto, seja um novo modelo de celular, um carro ou uma roupa.

Para nós espíritas, é fundamental que o alerta contra o consumismo seja entendido como uma dupla proteção: ao meio ambiente – que não suporta as crescentes demandas de matéria-prima e energia da sociedade de consumo, onde a natureza é vista como um grande e inesgotável supermercado – e ao nosso espírito imortal, já que, segundo a Doutrina Espírita, uma das características predominantes dos mundos inferiores da Criação é justamente a atração pela matéria.



Nesse sentido, não há distinção entre consumismo e materialismo, e nossa invigilância poderá custar caro ao projeto evolutivo que desejamos encetar. Essa questão é tão crucial para o Espiritismo, que na pergunta 799 de “O Livro dos Espíritos”, quando Kardec pergunta “de que maneira pode o Espiritismo contribuir para o progresso?”, a resposta é taxativa: “Destruindo o materialismo, que é uma das chagas da sociedade (...)”.

Uma das mais prestigiadas organizações não-governamentais do mundo, o Worldwatch Institute, com sede em Washington, divulga anualmente o relatório “Estado do Mundo”, uma grande compilação de dados e estudos científicos que revelam os estragos causados pelo atual modelo de desenvolvimento. Na última versão do relatório, referente ao ano de 2004, afirma-se que “o consumismo desenfreado é a maior ameaça à humanidade”.

Os pesquisadores do Worldwatch denunciam que “altos níveis de obesidade e dívidas pessoais, menos tempo livre e meio ambiente danificado são sinais de que o consumo excessivo está diminuindo a qualidade de vida de muitas pessoas”.

Aos espíritas que mantêm uma atitude comodista diante do cenário descrito nestas breves linhas, escorados talvez na premissa determinista de que tudo se resolverá quando se completar a transição da Terra (de mundo de expiações e de provas para mundo de regeneração), é bom lembrar do que disse Santo Agostinho no capítulo III de “O Evangelho segundo o Espiritismo”.

Ao descrever o mundo de regeneração, Santo Agostinho diz que mesmo livre das paixões desordenadas, num clima de calma e repouso, a humanidade ainda estará sujeita “às vicissitudes de que não estão isentos senão os seres completamente desmaterializados; há ainda provas a suportar (...)” e que “nesses mundos, o homem ainda é falível, e o Espírito do mal não perdeu, ali, completamente o seu império. Não avançar é recuar, e se não está firme no caminho do bem, pode voltar a cair nos mundos de expiação, onde o esperam novas e terríveis provas”.

Ou seja, não há mágica no processo evolutivo: nós já somos os construtores do mundo de regeneração, e, se não corrigirmos o rumo na direção do desenvolvimento sustentável, prorrogaremos situações de desconforto já amplamente diagnosticadas.

Não é possível, portanto, esperar a chegada do mundo de regeneração de braços cruzados. Até porque, sem os devidos méritos evolutivos, boa parte de nós deverá retornar a esse mundo pelas portas da reencarnação.

Se ainda quisermos encontrar aqui estoques razoáveis de água doce, ar puro, terra fértil, menos lixo e um clima estável – sem os flagelos previstos pela queima crescente de petróleo, gás e carvão que agravam o efeito estufa – deveremos agir agora, sem perda de tempo.

Depois que a ONU decretou que 2003 seria o ano internacional da água doce, os católicos não hesitaram em, pela primeira vez em 40 anos de Campanha da Fraternidade, eleger um tema ecológico: “Água: fonte de vida”. Mais de 10 mil paróquias em todo o Brasil foram estimuladas a refletir sobre o desperdício, a poluição e o aspecto sagrado desse recurso fundamental à vida.

E nós espíritas? O que fizemos, ou o que pretendemos fazer? O grande Mahatma Gandhi – que afirmou certa vez que toda bela mensagem do Cristianismo poderia ser resumida no Sermão da Montanha – nos serve de exemplo, quando diz: “sejamos nós a mudança que nós queremos ver no mundo”.
André Trigueiro Mendes








































sábado, 5 de fevereiro de 2011

NUTRIÇÃO ESPIRITUAL - ROTULAGEM

JESUS CRISTO

NUTRIÇÃO ESPIRITUAL - ROTULAGEM

 

"Mas quem não possui o espírito do Cristo, esse não é dele."  Paulo (Romanos, 8,9)


A rotulagem não tranqüiliza.

Procuremos a essência.

Há louvores em memória do Cristo, em muitos estandartes que estimulam a animosidade entre irmãos.

Há símbolos do Cristo em numerosos tribunais que, em muitas ocasiões, apenas exaltam a injustiça.

Há preciosas referências ao Cristo, em vozes altamente categorizadas da cultura terrestre, que, em nome do Evangelho, procuram estender a miséria e a ignorância.

Há juramentos por Cristo, através de conversações que constituem vastos corredores na direção das trevas.

Há invocações verbais ao Cristo, em operações puramente comerciais, que são escuros atentados à harmonia da consciência.

Meditemos na extensão de nossos deveres morais, no círculo das responsabilidades que abraçamos com a fé cristã.

Jesus permanece em imagens, cartazes, bandeiras, medalhas, adornos, cânticos, poemas, narrativas, discursos, sermões, estudos e contendas, mas isso é muito pouco se lhe não possuímos o ensinamento vivo, na consciência e no coração.

É sempre fácil externar entusiasmo e convicção, votos brilhantes e frases bem feitas.

Acautelemo-nos, porém, contra o perigo da simples rotulagem. Com o Apóstolo, não nos esqueçamos de que, se não possuímos o espírito do Cristo, dele nos achamos ainda
consideravelmente distantes.

Emmanuel
Francisco C. Xavier




sexta-feira, 4 de fevereiro de 2011

A evolução dos conhecimentos

Juvanir Borges de Souza




A evolução dos conhecimentos



Revelar é tornar conhecido um fato, uma parte da verdade antes desconhecida.

Revelar é tornar conhecido um fato, uma parte da verdade antes desconhecida, ou uma manifestação da Natureza, que antes era observada mas de que não se conhecia a causa.

Em um mundo atrasado, como a Terra, habitado por seres imperfeitos que necessitam evoluir nos sentimentos como nos conhecimentos, as revelações de natureza moral e as de caráter intelectual são essenciais, proporcionadas pelo Criador através de suas leis perfeitas e eternas.

A progressão da população terrena, constituída por Espíritos em diferentes estágios evolutivos, embora lenta, é constante e contínua, como se pode observar pela comparação de períodos históricos separados pelos séculos e milênios.

Todas as ciências, que tornam conhecido aquilo que se achava oculto na Natureza, fazem revelações que vão enriquecendo o patrimônio crescente das humanidades que, por sua vez, se renovam continuamente com a encarnação e a reencarnação de seres encaminhados a este mundo, de acordo com as leis divinas.

A Física, a Química, a Astronomia, a Medicina e todas as demais ciências, aumentaram os conhecimentos humanos, que podem ser considerados revelações.

Ao lado do saber de ordem científica, ligado aos elementos materiais, alinham-se os conhecimentos de natureza espiritual.

Toda revelação, seja no campo da matéria, seja no do espírito, os dois elementos do Universo, representa sempre um aspecto da Verdade, sua característica essencial.

No decorrer dos séculos e dos milênios, os homens, auxiliados pela Espiritualidade superior, têm retificado muitos de seus conhecimentos científicos, filosóficos e religiosos tidos como verdadeiros, mas contraditados por novas concepções.

É a verdade que se impõe, substituindo o que fora anteriormente admitido como fatos, mas que não foram confirmados como realidades.

São muitos os exemplos das mutações de conceitos, idéias, pensamentos e definições, considerados e aceitos como corretos, por outros que os substituíram, por encerrarem concepções verdadeiras.

Assim ocorreram com os conceitos tradicionais de matéria, oriundos das filosofias aristotélica e escolástica, que se modificaram inteiramente, quando a Ciência moderna chega à conclusão de que a matéria, em todas as condições sob as quais se apresenta, é sempre uma forma de energia concentrada.

Nos domínios das religiões e das crenças, as transformações das idéias são profundas, com a interferência da Espiritualidade para as retificações necessárias, na medida em que os homens se apresentam em condições de aprender e entender o que lhes é desconhecido.

Nesse sentido, há exemplos de transformações radicais nas concepções humanas que, do politeísmo dominante por muitos milênios, passaram à crença verdadeira no Deus único, trazida pela revelação mosaica e confirmada pelo Cristo.

Desse modo, as revelações ocorrem tanto no âmbito das ciências quanto no das doutrinas religiosas e filosóficas, uma vez que elas são auxílios superiores a serviço do progresso das criaturas que, por suas próprias limitações, não conseguiram evoluir sem o auxílio do Criador, que designa seus missionários para transmiti-las aos homens.

No que se refere às religiões e à fé, as revelações particularizam-se especialmente com a moral e com as coisas espirituais, muito mais difíceis de serem compreendidas e vivenciadas pelos homens, já que independem dos sentidos físicos e da inteligência.

Não foi por outro motivo que o Cristo se preocupou mais com os ensinos morais do que com os de natureza científica.

Além disso, Jesus utilizou, muitas vezes, em suas lições e exemplos, linguagem figurada e simbólica, apropriada ao melhor entendimento àqueles que o ouviam, tendo em vista a dificuldade que tinham para a percepção das verdades que lhes eram transmitidas.

As diversas religiões tiveram seus reveladores, que auxiliaram na compreensão parcial da verdade por elas divulgada, apropriada à época e aos povos aos quais pertenciam.

A existência de várias crenças religiosas, cada qual com seus reveladores, demonstram que elas não estão isentas de erros e enganos. Representam, sim, fases do progresso, lei divina que impulsiona a evolução, desde que acolhidas às retificações necessárias.

Em nosso mundo de expiações e provas, as crenças religiosas, benéficas por um lado, por outro têm sido utilizadas para o domínio de populações e para a satisfação de ambições injustificáveis, gerando conflitos entre elas.

As revelações podem ser verdadeiras, confiáveis, definitivas, como também podem ser incompletas, parciais e sujeitas a modificações futuras.

As que emanam de Deus, como as que o Cristo transmitiu à Humanidade, quando de sua excepcional missão, há dois mil anos, têm o caráter essencialmente divino da verdade.

As revelações de Jesus, constituídas por seus ensinos e exemplos, de acordo com suas próprias palavras, foram complementadas pelo Consolador que Ele prometeu enviar, com autorização do Pai, o qual já se encontra no nosso mundo, desde os meados do século XIX. É o Espiritismo, a Doutrina Consoladora.

Esse importante conhecimento dos tempos atuais, denominado também Terceira Revelação, sucedendo às revelações mosaicas e do Cristo, deu-nos as informações sobre o mundo invisível, que sempre existiu, mas do qual os homens não tinham noções precisas, nem das leis que o regem, nem as suas relações com o nosso mundo físico.

A natureza dos seres que o habitam é o Espírito imortal, ou seja, o estado do próprio homem após a morte do corpo físico.

A Revelação Espírita é, ao mesmo tempo, divina e científica, uma vez que sua iniciativa foi da Espiritualidade superior, prometida por Jesus e autorizada por Deus, para que os homens fossem esclarecidos acerca de verdades e realidades que eles desconheciam e que não poderiam alcançar por si mesmos, sem a cooperação e as instruções dos Espíritos superiores.

Por outro lado, seu caráter científico se deve ao fato de que, tanto os Espíritos que a transmitiram, à frente o Espírito de Verdade, quanto os que a receberam – o Codificador e os intermediários adredemente reparados para os trabalhos (médiuns) – não estavam dispensados das árduas tarefas da observação, da pesquisa, do confronto com o que já era conhecido, do raciocínio lógico e do livre exame do que era transmitido.

Além disso, a Doutrina Espírita não foi imposta pelos Espíritos à crença cega, mas deduzida pelos homens que a receberam, especialmente o seu Codificador, preparado anteriormente para a observação, o estudo e as comparações dos fatos.

Desse modo, a elaboração da Doutrina obedeceu ao método experimental e, tal como nas ciências positivas, não estabeleceu qualquer teoria preconcebida.

A existência dos Espíritos, do perispírito, da lei da reencarnação e de todos os princípios doutrinários são fatos comprovados pela observação rigorosa.

Assim como a Ciência da Terra tem como objetivo o estudo de tudo que se refere à matéria, o Espiritismo busca o conhecimento das leis que regem o princípio espiritual.

Sendo a matéria e o espírito os dois elementos do Universo, a Ciência e o Espiritismo se completam e se apóiam reciprocamente. Mas o conhecimento de tudo que se refere à materialidade tinha que vir antes do que diz respeito à Espiritualidade, porque a matéria é que mais diretamente impressiona os sentidos físicos do Espírito encarnado.

A comunicação entre os seres dos dois mundos, o material e o espiritual, produz conseqüências de grande importância, uma vez que nas diferentes Esferas Espirituais está o futuro que espera todos os que vivem na Terra, após a morte do corpo físico.

As revelações que vieram das relações entre os dois mundos acarretaram grandes mudanças nas crenças, nos hábitos e nos procedimentos humanos, já que O homem pode saber, com segurança, o que o espera após a morte do corpo.

O conhecimento do Espiritismo tem, pois, extrema importância para todos os povos, interessando a todas as nacionalidades, a todas as classes sociais e a todos os cultos religiosos, pelos esclarecimentos que oferece sobre a vida futura, principalmente quando se reconhece o estreito relacionamento entre os ensinamentos morais de Jesus e as verdades e realidades da Doutrina Consoladora.

[...] mais tarde, porém, enviar-vos-ei o Consolador, o Espírito de Verdade, que restabelecerá todas as coisas e vo-las explicará todas. (S. João, 14, 16; S.Mateus, 17.)1

Juvanir Borges de Souza

Reformador Novembro 2009

1KARDEC, Allan. A gênese. 52. ed. 1. reimp. Rio de Janeiro: FEB, 2008. Cap. 1, item 26.






quinta-feira, 3 de fevereiro de 2011

O sutiã da esqueleta



Emerson Barros de Aguiar
O sutiã da esqueleta

Por Emerson Barros de Aguiar
emerson@etical.org.br





Depois do botox, tomar “injeção na testa” deixou de ser figura de linguagem. Só não é de graça. Que o diga a rica indústria da cosmetologia.

Não que as estratégias de preservação da juventude sejam um privilégio da nossa época. Há um capítulo inteiro dedicado a fórmulas de beleza no Ars Amatoria, de Ovídio.

Diferentemente de hoje, porém, a antiguidade não estava focada na aparência e na superfície das pessoas. O cânone de beleza atual não passa da epiderme humana, daí os cremes dermatológicos fazerem muito mais sucesso atualmente.

O padrão de beleza anoréxico é uma imposição da indústria da moda. A ditadura do tamanho único tem como molde o biofísico da mulher anglo-saxônica, ignorando o de todas as outras etnias. Daí a corrida mundial aos personal trainners e cirurgiões plásticos para as devidos enxertos, mutilações e adequações ao modelo estético vigente, ao qual batizei de “vaca”: malhada dos seios grandes.

Os donos das multinacionais da moda não estão interessados no sofrimento e frustração daquelas consumidoras que não correspondem aos seus ditames.

Hoje, qualquer sacrifício se justifica em função do ideal de juventude e beleza. Seitas comerciais proliferam com tais promessas, vendendo o emagrecimento associado ao enriquecimento igualmente milagroso, numa histeria coletiva em rede.

A moral, subvertida, condena a obesidade mais do que a falta de caráter. Repele qualquer sintoma de velhice e de doença mais do que o roubo, a violência e a promiscuidade. Pecado é ser gordo, velho, feio e doente.

Sem dúvida merecem aplauso os avanços da medicina que proporcionam uma vida mais saudável e a correção de efeitos mórbidos. No entanto, não é saudável pautar a felicidade pela obtenção de um aspecto espartano.

A fórmula não deu certo para o galã de novelas, loiro dos olhos azuis, famoso, rico, infeliz e dependente químico. Também não funcionou para o jovem apresentador da revista eletrônica sobre celebridades de um canal pago. Bonito, “malhado”, badalado e “bem sucedido”, suicidou-se aos 27 anos.

Em tempos produtivistas, o somatório de dados objetivos deveria produzir a felicidade, só que os fatores somados não são suficientes para obtenção do seu produto. É necessário algo sobrenatural. A felicidade não se mede pelo número de seguidores no twitter, pela quantidade de “amigos” no Facebook, pelas horas de academia ou pelo índice de massa corporal de alguém. Ela é algo interior que existe ou não.

Pessoalmente não tenho nada contra o silicone, que é apenas um polímero de cadeia longa, transparente e maleável. Além de inumeráveis outras aplicações, ele é muito útil no box do meu banheiro e nas esquadrias do meu apartamento. Resguardadas as suas aplicações estritamente terapêuticas, confesso que não sou muito simpático à sua presença dentro do corpo humano.

Imagine o constrangimento do coveiro que, ao abrir a sepultura para transladar os restos mortais ao ossuário, depara-se com um par de próteses de silicone sobre o esqueleto da falecida...





Emerson Barros de Aguiar,
Doutorando em "Unión Europea" pela Universidad de Zaragoza, Espanha
Doutorando em "Filosofía, Escritura y Poder" pela Universidad de Zaragoza, Espanha
DEA em "Filosofía, Escritura y Poder" pela Universidad de Zaragoza







quarta-feira, 2 de fevereiro de 2011

O GRANDE PRÍNCIPE


JUSTIÇA


O GRANDE PRÍNCIPE

Um rei oriental, poderoso e sábio, achando-se envelhecido e doente, reuniu os três filhos, deu a cada um deles dois camelos carregados de ouro, prata e pedras preciosas e determinou-lhes gastar esses tesouros, em viagens pelo reino, durante três meses, com a obrigação de voltarem, logo após, a fim de que ele pudesse efetuar a escolha do príncipe que o sucederia no trono.
Findo o prazo estabelecido, os jovens regressaram à casa paterna.
Os dois mais velhos exibiam mantos riquíssimos e chegaram com enorme ruido de carruagens, mas o terceiro vinha cansado e ofegante, arrimando-se a um bordão qual mendigo, despertando a ironia e o assombro de muita gente.
O rei bondoso abençoou-os discretamente e dispôs-se a ouvi-los, perante compacta multidão.
O primeiro aproximou-se, fez larga reverência, e notificou:
- Meu pai e meu soberano, viajei em todo o centro do País e adquiri, para teu descanso, um admirável palácio, onde teu nome será venerado para sempre. Comprei escravos vigorosos que te sirvam e reuni, nesse castelo, digno de ti, todas as maravilhas de nosso tempo. Dessa moradia resplandecente, poderás governar sempre honrado, forte e feliz.
O monarca pronunciou algumas palavras de agradecimento, mostrou amoroso gesto de aprovação e mandou que o segundo filho se adiantasse:
- Meu pai e meu rei! - exclamou, contente - trago-te a coleção de tapetes mais ricos do mundo. Dezenas de pessoas perderam o dom da vista, a fim de tecê-los. Aproxima-se da cidade uma caravana de vinte camelos, carregando essas preciosidades que te ofereço, ó augusto dirigente, para revelares tua fortuna e poder!...
O monarca expressou gratidão numa frase carinhosa e recomendou que o mais moço tomasse a palavra.
O filho mais novo, alquebrado e mal vestido, ajoelhou-se e falou, então:
- Amado pai, não trouxe qualquer troféu para o teu trono venerável e glorioso... Viajei pela terra que o Supremo Senhor te confiou, de Norte a Sul e de Leste a Oeste, e vi que os súditos esperam de teu governo a paz e o bem-estar, tanto quanto o crente aguarda a felicidade da Proteção do Céu... Nas montanhas, encontrei a febre devorando corpos mal abrigados e movimentei médicos e remédios, em favor dos sofredores. Ao Norte, vi a ignorância dominando milhares de meninos e jovens desamparados e instalei escolas em nome de tua administração justiceira. A Oeste, nas regiões pantanosas, fui surpreendido por bandos de leprosos e dei-lhes conveniente asilo em teu nome. Nas cidades do Sul, notei que centenas de mulheres e crianças são vilmente exploradas pela maldade humana e iniciei a construção de oficinas em que o trabalho edificante as recolha. Nas fronteiras, conheci inúmeros escravos de ombros feridos, amargurados e doentes, e libertei-os, anunciando-lhes a magnanimidade de tua coroa!...
A comoção interrompeu-o. Fez-se grande silêncio e viu-se que o velho soberano mostrava os olhos cheios de lágrimas.
O rapaz cobrou novo ânimo e terminou:
- Perdoa-me se entreguei teu dinheiro aos necessitados e desculpa-me se regresso à tua presença envolvido em extrema pobreza, por haver conhecido, de perto, a miséria, a enfermidade, a ignorância e a fome nos domínios que o Céu conferiu às tuas mãos benfeitoras... A única dádiva que te trago, amado pai, é o meu coração reconhecido pelo ensinamento que me deste, permitindo-me contemplar o serviço que me cabe fazer... Não desejo descansar enquanto houver sofrimento neste reino, porque aprendi contigo que as necessidades dos filhos do povo são iguais às dos filhos do rei!...
O velho monarca, em pranto, muito trêmulo, desceu do trono, abraçou demoradamente o filho esfarrapado, retirou a coroa e colocou-a sobre a fronte -dele, exclamando, solene:
- Grande Príncipe: Deus, o Eterno Senhor te abençoe para sempre! É a ti que compete o direito de governar, enquanto viveres.
A multidão aplaudiu, delirando de júbilo, enquanto o jovem soberano, ajoelhado, soluçava de emoção e reconhecimento.

Neio Lúcio

terça-feira, 1 de fevereiro de 2011

DIÁLOGOS COM AS SOMBRAS

LIVRO DE LEITURA OBRIGATÓRIA DOS ESPÍRITAS. 

RESUMO E CONCLUSÕES


Creio haver chegado ao final da tarefa que me impus, na tentativa de fixar no papel alguns dos muitos ensinamentos amealhados, em mais de uma década, no trato íntimo e permanente com inúmeros companheiros desencarnados. Não me foi possível evitar que este livro se revestisse das características de um depoimento pessoal, pela razão, que me parece muito simples e válida, de que ele é mesmo um depoimento pessoal, pela própria natureza das experiências que procura transmitir.

Seu objeto é o ser humano, usualmente em penoso estado de desarmonização interior; não são quantidades físicas de substâncias químicas, cujas reações podemos prever, estudar e repetir à vontade, na frieza clássica
dos números, dos pesos, das medidas. Os irmãos que comparecem aos nossos grupos mediúnicos estão em crises, por vezes, seculares, e até milenares. Perderam-se no emaranhado de suas perplexidades e não podem atinar sozinhos com a trilha que os leve para fora do poço profundo e escuro, de volta àluz abençoada do Senhor, sob a qual possam contemplar suas imperfeições e empenhar-se em alijá-las do coração.

O trabalho de doutrinação, chamado tão apropriadamente de trabalho de resgate, em inglês (rescue work), só é possível em clima de total doação, de empatia, de profundo e sincero amor fraterno, o que o torna uma atividade do coração, muito pessoal, essencialmente humana. Não há nele espaço para meias-verdades, fingimentos “inocentes”, indiferença ou comodismos.

O grupo mediúnico é instrumento de socorro, ferramenta de trabalho, campo de experimentações fraternas e escada por onde sobem não apenas os nossos companheiros desarvorados, mas subimos também nós, que tentamos redimir-nos na tarefa sagrada do serviço ao próximo. O grupo merece e exige cuidados muito especiais, dedicação constante, vigilância permanente, desde antes mesmo de constituir-se. É preciso criar para ele uma estrutura robusta, mas suficientemente flexível, para que possa funcionar sem hesitações e
interrupções. Se o trabalho que lhe for cometido, pelos companheiros espirituais, revelar-se fecundo e promissor, ele será implacavelmente assediado. Levantar-se-ão contra ele forças obstinadas, dispostas a tudo para fazê-lo calar-se e dissolver-se. Assim, nada de ilusões: a medida de seu êxito, em termos espirituais, é precisamente a perseguição indormida, a pressão assídua de companheiros em desequilíbrio, que não hesitarão diante de nenhum recurso, para destruí-lo.

Por isso, na fase de planejamento, devem ficar bem definidos, além de suas finalidades e objetivos, seus métodos de trabalho. Nunca chegaremos a prever todas as situações que um grupo poderá enfrentar, mas seus métodos têm que ser suficientemente ágeis, para as acomodações necessárias, sem prejuízo das tarefas que se desdobram. Nunca saberemos o suficiente em matéria de contacto com os nossos irmãos desvairados pela dor e pela revolta.

Cada sessão é diferente, cada manifestação traz uma surpresa ou um ensinamento novo. É necessário que observemos com toda a atenção qualquer pormenor, aprendamos a lição que cada um deles contém e a incorporemos ao acervo da experiência.

Citarei um pequeno incidente, aparentemente sem importância.

Nossos amigos espirituais de há muito nos haviam prevenido de que, em hipótese alguma, deixássemos ultrapassar o horário de atendimento, como ficou dito e explicado alhures, neste livro. Muito bem. Redobrei o cuidado com o controle do tempo e, então, veio outra observação: recomendavam-me que procurasse colocar o relógio diante de meus olhos, de forma que, para consultá-lo, não fosse necessário virar-me e tomá-lo nas mãos, como costumava fazer. Por que a recomendação? Muito simples: não apenas a preocupação excessiva com o tempo pode desviar-nos do clima exigido pelo trabalho, mas porque até mesmo o próprio gesto de voltar-me poderia quebrar a continuidade da tarefa junto ao irmão incorporado, exigindo provavelmente esforço maior dos companheiros desencarnados. Quem poderia imaginar que a mera posição de um relógio, na sala de trabalho, fosse tão importante, a ponto de merecer advertência específica?

Além de tais observações esporádicas, dos companheiros espirituais, infinitamente mais experimentados do que nós, o estudo é uma necessidade imperiosa, absoluta. Temos a tendência de julgar que sabemos mais do que realmente sabemos. É fácil testar essa verdade. Leia você, leitor, qualquer página de “O Livro dos Espíritos”, ou de “O Livro dos Médiuns”, e verá que há sempre aspectos que você não havia ainda notado, observações que passaram despercebidas, ângulos insuspeitados, por mais que você esteja certo de conhecer bem a obra de Kardec. O mesmo é válido para qualquer outrodocumento doutrinário sério, como as obras complementares.

O aprendizado tem que ser constante, por várias razões. Primeiro, porque nossa memória é falha, e leva-nos a esquecer recomendações e instruções importantes, já lidas no passado. Segundo, porque mesmo durante a leitura, a mente divaga, e lemos trechos substanciais, sem a participação do consciente.

Um grupo, porém, não são apenas finalidades, objetivos e métodos; ele é também gente. Encarnada e desencarnada.

Quanto aos encarnados, nossos companheiros em torno da mesa, toda a atenção deve ser posta em selecioná-los, O grupo tem que começar de maneira certa, para subsistir. Se for constituído à base de elementos inconstantes e inseguros, serão remotas suas possibilidades de sobrevivência e inseguros os trabalhos, por melhores que sejam as intenções.

Além dos demais pontos críticos, a seleção dos médiuns é da mais alta importância, bem como a maneira de tratá-los e integrá-los no trabalho, a fim de que possam dar de si mesmos, em clima de segurança e confiança. O médium não deve dominar o grupo, nem ser dominado por ele, e sim portar-se como um dos trabalhadores que o compõem. Se a recomendação de estudar sempre é válida para o grupo, como um todo, para o médium ela adquire as proporções de uma obrigação.

O doutrinador não será jamais o sumo-sacerdote de um novo culto, a impor ritos e fórmulas mágicas, a ditar ordens, como um general em campanha; ele é apenas mais um trabalhador, o que não significa que a disciplina do grupo deva correr à matroca. Usualmente, o doutrinador acumula as funções de dirigente
encarnado dos trabalhos, pela simples razão de que, no contexto de um grupo humano, alguém precisa assumir a liderança. Liderança, porém, não é despotismo. Se ele é também o dirigente humano, precisa contar com o respeito afetuoso de seus companheiros, para que possam trabalhar todos em harmonia.

Se sentir que não tem condições pessoais para doutrinar, deve atribuir essas funções a outros membros da equipe, que julgue mais bem qualificados.

São rigorosas as especificações de um bom doutrinador; dilicilmente reúnem-se todas as características desejáveis numa só pessoa. Por isso, lembrei por aí, no livro, que não há doutrinadores perfeitos; contentemo-nos em ser razoáveis e lutemos por adquirir as qualidades que nos faltam. De minha parte, considero algumas dessas qualidades como apenas desejáveis, e outras indispensáveis. Entre estas colocaria, como vimos:

* Formação doutrinária

* Evangelização

* Autoridade moral

* Fé

* Amor

O grande ativador desses petrechos espirituais é, sem dúvida alguma, o amor. Para o doutrinador, o preceito evangélico do “amai-vos uns aos outros”, e aquele outro, “amai os VOSSOS inimigos”, não são apenas frases bonitas, para declamar aos Espíritos, mas condições essenciais ao trabalho. O amor
fraterno, no trabalho de doutrinação, tem que ser sentido mesmo, e não apenas fingido ou forçado; tem que emergir das profundezas do ser, como um movimento irreprimível, no qual nos doamos integralmente, quer o
companheiro aceite ou não, de pronto, a nossa entrega. O impacto do amor Sincero, no coração de um irmão que sofre, éuma das coisas mais impressionantes e comoventes do trabalho de doutrinação. Vemo-lo repetir-se a cada instante, sempre o mesmo, e nunca nos cansamos de admirar a sua força positiva e construtiva. Jamais deixei de me surpreender com o espetáculo emocionante desse impacto, o único, em nossa miserável existência de seres imperfeitos, que nos dá realmente a sensação de que o amor é um milagre que podemos realizar em nome do Cristo.

Quando Ele falou a João que nós somos deuses, creio que se referia especificamente ao amor em nós. Ao criar-nos, Deus colocou em nós a fagulha do amor, dizem os grandes instrutores. E freqüentemente nos esquecemos de que uma fagulha do infinito é também infinita e, por isso, são ilimitadas as nossas possibilidades de crescimento, pelas trilhas do amor. Parece que o Pai imantou com esse amor a nossa pequenina limalha e, por isso, somos irresistivelmente atraídos para Ele, através do espaço infinito e do tempo imemorial.

Assim, quando conseguimos transmutar-nos em amor, ante os companheiros que sofrem, estamos nos colocando no sentido e na direção que segue todo o Universo.

Quem poderá resistir?

— “Se Deus está conosco — dizia o nosso Paulo — quem estará contra nós?”

Se me fosse pedido o segredo da doutrinação, diria apenas uma palavra:

— AMOR!

Extraído do livro Diálogos com as sombras, de Hermínio C. Miranda.