sexta-feira, 27 de agosto de 2010

A ALMA

A ALMA

A alma vem de Deus; é, em nós, o princípio da inteligência e da vida. Essência, misteriosa, escapa à análise, como tudo quanto dimana do Absoluto. Criada por amor, criada para amar, tão mesquinha que pode ser encerrada numa forma acanhada e frágil, tão grande que, com um impulso do seu pensamento, abrange o Infinito, a alma é uma partícula da essência divina projetada no mundo material.

Desde a hora em que caiu na matéria, qual foi o caminho que seguiu para remontar até ao ponto atual da sua carreira? Precisou passar vias escuras, revestir formas, animar organismos que deixava ao sair de cada existência, como se faz com um vestuário inútil. Todos estes corpos de carne pereceram, o sopro dos destinos dispersou-lhes as cinzas, mas a alma persiste e permanece na sua perpetuidade, prossegue sua marcha ascendente, percorre as inumeráveis estações da sua viagem e dirige-se para um fim grande e apetecível, um fim que é a perfeição.

A alma contém, no estado virtual, todos os germens dos seus desenvolvimentos futuros. É destinada a conhecer, adquirir e possuir tudo. Como, pois, poderia ela conseguir tudo isso numa única existência? A vida é curta e longe está a perfeição! Poderia a alma, numa vida única, desenvolver o seu entendimento, esclarecer a razão, fortificar a consciência, assimilar todos os elementos da sabedoria, da santidade, do gênio? Para realizar os seus fins, tem de percorrer, no tempo e no espaço, um campo sem limites. É passando por inúmeras transformações, no fim de milhares de séculos, que o mineral grosseiro se converte em diamante puro, refratando mil cintilações. Sucede o mesmo com a alma humana.

O objetivo da evolução, a razão de ser da vida não é a felicidade terrestre, como muitos erradamente crêem, mas o aperfeiçoamento de cada um de nós, e esse aperfeiçoamento devemos realizá-lo por meio do trabalho, do esforço, de todas as alternativas da alegria e da dor, até que nos tenhamos desenvolvido completamente e elevado ao estado celeste. Se há na Terra menos alegria do que sofrimento, é que este é o instrumento por excelência da educação e do progresso, um estimulante para o ser, que, sem ele, ficaria retardado nas vias da sensualidade. A dor, física e moral, forma a nossa experiência. A sabedoria é o prêmio.

Pouco a pouco a alma se eleva e, conforme vai subindo, nela se vai acumulando uma soma sempre crescente de saber e virtude; sente-se mais estreitamente ligada aos seus semelhantes; comunica mais intimamente com o seu meio social e planetário. Elevando-se cada vez mais, não tarda a ligar-se por laços pujantes às sociedades do Espaço e depois ao Ser Universal.

Assim, a vida do ser consciente é uma vida de solidariedade e liberdade. Livre dentro dos limites que lhe assinalam as leis eternas, faz-se o arquiteto do seu destino. O seu adiantamento é obra sua . Nenhuma fatalidade o oprime, salvo a dos próprios atos, cujas conseqüências nele recaem; mas, não pode desenvolver-se e medrar senão na vida coletiva com o recurso de cada um e em proveito de todos. Quanto mais sobe, tanto mais se sente viver e sofrer em todos e por todos. Na necessidade de se elevar a si mesmo, atrai a si, para fazê-los chegar ao estado espiritual, todos os seres humanos que povoam os mundos onde viveram. Quer fazer por eles o que por ele fizeram os seus irmãos mais velhos, os grandes Espíritos que o guiaram na sua marcha.

A Lei de justiça requer que, por sua vez, sejam emancipadas, libertadas da vida inferior todas as almas. Todo ser que chega à plenitude da consciência deve trabalhar para preparar aos seus irmãos uma vida suportável, um estado social que só comporte a soma de males inevitáveis. Esses males, necessários ao funcionamento da lei de educação geral, nunca deixarão de existir em nosso mundo, representam uma das condições da vida terrestre. A matéria é o obstáculo útil; provoca o esforço e desenvolve a vontade; contribui para a ascensão dos seres impondo-lhes necessidades que os obrigam a trabalhar. Como, sem a dor, havíamos de conhecer a alegria; sem a sombra, apreciar a luz; sem a privação, saborear o bem adquirido, a satisfação alcançada? Eis aqui a razão por que encontramos dificuldades de toda sorte em nós e em volta de nós.

(Léon Denis -Do livro "O Problema do Ser, do Destino e da Dor"



quinta-feira, 26 de agosto de 2010

CIÊNCIA SEM RELIGIÃO - Religião sem sabedoria


CIÊNCIA SEM RELIGIÃO
Religião sem sabedoria



Onde está o sábio, onde o padre, que não nos esclarecem sobre o nosso passado?

Onde a sabedoria da "ciência", e a luz da "religião" que não ilumina os primórdios do meu Espírito, o nascimento da minha alma?

Que direito de censores poderão ter os sábios, que atribuição de "curas das almas", poderão ter os sacerdotes, se eles são incapazes de desvendar o meu passado, de iluminar o meu futuro?!

Será que a minha existência espiritual está limitada à data da minha existência corporal?
Será que a minha alma foi gerada no ventre materno?

Como se explica, neste caso, a inteligência embrionária de velhos que poderiam ser meus pais, e o desenvolvimento intelectual, superior ao meu, de moços que poderiam ser meus filhos?

Como explicar a moralidade admirável de moços em contraposição com as paixões vis de certos velhos?

Não é a idade que faz a inteligência e a moralidade.

Que será que as gera?

A influência do meio e da educação?

Mas, vemos homens, e as páginas da História deles fazem menção, cujas façanhas ultrapassam a ferocidade dos próprios animais, e, entretanto, foram criados em meio de santidade, privilegiados pela instrução!

De outro lado vemos santos que vicejam entre uma raça maldita e degradada, como um ramo de açucenas entre cardos!

Serão, porventura, a inteligência e a moralidade, o produto do meio e da educação? Vejamos agora se elas são resultantes, propriedades da matéria; se elas são emanações do corpo humano pelo funcionamento do cérebro, dos nervos, do coração, assim como a urina e a bílis são secreções dos rins e do fígado!

Mas, então, a alma extingue-se com o corpo, assim como não existia antes do corpo existir: é um vapor que desaparece reduzido à cinza o último carvão, é uma chama que se apaga à última gota do combustível, é uma claridade que desaparece ao apagar-se a última torcida?!

Se assim pensarmos, que são as Letras, as Artes, as Ciências, as religiões?

Se prevalece a química dos corpos, há de haver forçosamente uma matéria, um líquido, uma droga para elaboração do fluido da caridade e da sabedoria!

Quais é esse elemento? Como encontrá-lo? Hoje, que tudo se mede e se pesa, até os mais longínquos astros; hoje, que se conhece a natureza dos fluidos pela cor, pelo perfume, visto que o pensamento se corporifica, como está demonstrado pela fotografia; como, então, não determinam a causa material, o elemento que produz a caridade e a sabedoria?!

Não, nem os sábios, nem os padres serão capazes de resolver o intrincado problema da alma!

As religiões dos padres e a sabedoria dos sábios estão encerradas nas igrejas e nas academias, e das igrejas e academias é que têm saído as mais poderosas forças para impedir o gênio inovador na sua missão progressista.

Não evocamos os padres e os sábios para alcançar deles, ou por eles, o que quer que seja; nosso intuito foi demonstrar a falência dessas instituições, cuja única nobreza tem sido enobrecer os seus "caseiros", atraindo para eles a admiração do mundo.

Não apelamos para os padres nem para os acadêmicos esperando que eles nos dêem solução do problema, porque eles próprios se desconhecem, não sabem a sua origem, nem o futuro que os espera!

Não invocamos, pois, os mortos para saber dos vivos.

Não é nos templos, nem nas academias, que encontraremos o registro da nossa individualidade, mas, sim, na escala inferior dos seres, no reino animal, de que o nosso corpo carnal é o mais característico exemplar.

Poderá alguém negar esta verdade, que se evidencia aos olhos de todos os que querem ver?

Examine o leitor, com espírito perscrutador, o reino animal e o reino hominal, e verá que não encontra entre estes reinos limites distintamente traçados.

No extremo do reino animal com o reino vegetal, estão os zoófitos ou animais plantas, nome que indica pertencerem eles a ambos os reinos, servindo-lhes de traço de união. E no extremo do reino animal com o reino hominal encontramos o orangotango, o chipanzé, o gorila, que a tal ponto apresentam as maneiras do homem que, por muito tempo, foram designados sob o nome de homens dos bosques.

Como o homem, eles andam com os pés, servem-se de bastões, constroem cabanas, e com as mãos levam os alimentos à boca.

Comparai esses animais superiores com os homens inferiores, como os Quitches e os Latoucas, com os Fuegianos, com os Vedas do Ceilão, com os Docos de Cafa e de Gurage, por nós lembrados em folhas transatas, e dizei se o reino hominal não está preso pela mesma cadeia ao reino animal, assim como este último ao reino vegetal?

A Ciência da Terra, é a Ciência sem Religião, assim como as religiões sacerdotais são sem sabedoria; tanto uma como outra vão desaparecer para dar lugar à Verdadeira Ciência, que vem de Deus!


Cairbar Schutel
A Gênese da Alma

quarta-feira, 25 de agosto de 2010

Um Momento...

Um Momento...

Antes de negar-se aos apelos da caridade, medite um momento nas aflições dos outros...
Imagine você no lugar de quem sofre.

Observe os irmãos relegados aos padecimentos da rua e suponha-se constrangido à semelhante situação.

Repare o doente desamparado e considere que amanhã, provavelmente seremos nós, candidatos ao socorro na via pública.

Examine o ancião fatigado e reflita que se a desencarnação não chegar em breve, não escapará você da velhice.

Contemple as crianças necessitadas, lembrando os próprios filhinhos.

Quando a ambulância deslize rente ao seu passo, conduzindo o enfermo anônimo, pondere que talvez um parente nosso extremamente querido se encontre a gemer dentro dela.

Escute pacientemente os companheiros entregues à sombra do grande infortúnio e recorde que em futuro próximo, é possível estejamos na travessia das mesmas dificuldades.

Fite a multidão dos ignorantes e dos fracos cansados e infelizes, julgando-se entre eles, e mentalize a gratidão que você sentiria perante a migalha de Amor que alguém lhe ofertasse.

Pense um momento em tudo isso!!!

E você reconhecerá que a caridade para nós todos é simples obrigação!!!

André Luiz

Foto: Voluntárias em visita a Casa Transitória (Abrigo de Idosos), servem carinhosamente um lanche no refeitório da Casa. 

terça-feira, 24 de agosto de 2010

Buril de Luz

Buril de Luz



Em teus dias de dor,
Recorda, alma querida,
Que a dor é para a vida
Aquilo que o buril severo e contundente,
Entre as mãos do escultor,
É para o mármore sem forma...


Golpe aqui, golpe ali, outro mais e mais outro,
Um corte de outro corte se aproxima,
E o bloco se transforma
Em celeste beleza de obra-prima.


Que seria da pedra abandonada, ao chão,
Triste, bruta, singela,
Se a vida não traçasse para ela
Planos de construção?


Que destino o da argila esquecida e vulgar,
Sem a temperatura desumana,
Que deve suportar
Para ser porcelana?


Enxergaste, algum dia,
Fora das leis da natureza,
O trigo que não fosse triturado
Para ser pão à mesa?


Se alguém te fere e humilha, ama, entende, perdoa
E agradece ao trabalho, a angústia e a prova,
Em que a vida imortal se nos renova,
No anseio de ascensão que nos guia e abençoa...
Alma querida, escuta!...
Para seguir à frente,
Em plena elevação
Sempre mais alta e linda,


Quem não chora, não serve e nem padece ou luta,
Parece tão-somente
Um ser espiritual em formação
Que não nasceu ainda...




Maria Dolores
 
Foto: Manhã musical na Casa Transitória (Lar de Idosos), onde os Idosos admirados e felizes, dançaram, cantaram e divertiram-se ao som da sanfona nas mãos delicadas da maestrina Drª Fátima Pires.

segunda-feira, 23 de agosto de 2010

O SERVO BOM

O SERVO BOM


A condenação das riquezas se firmara no espírito dos discípulos com profundas raízes, a tal ponto que, por várias vezes, foi Jesus obrigado a intervir, de maneira a pôr termo a contendas injustificáveis.
De vez em quando, Tadeu parecia querer impor aos assistentes das pregações do lago a entrega de todos os bens aos necessitados; Felipe não vacilava em afiançar que ninguém deveria possuir mais que uma camisa, constituindo uma obrigação tudo dividir com os infortunados, privando-se cada qual do indispensável à vida.

– E quando o pobre nos surge somente nas aparências? – replicava judiciosamente Levi – Conheço homens abastados que choram na coletoria de Cafarnaum, como miseráveis mendigos, apenas com o fim de se eximirem dos impostos. Sei de outros que estendem as mãos à caridade pública e são proprietários de terras dilatadas. Estaríamos edificando o Reino de Deus, se, favorecêssemos a exploração?

– Tudo isso é verdade. – Redargüia Simão Pedro. – Entretanto, Deus nos inspirará sempre, nos momentos oportunos, e não é por essa razão que deveremos abandonar os realmente desamparados.
Levi, porém, não se dava por vencido e retrucava:
– A necessidade sincera deve ser objeto incessante de nosso carinhoso interesse; mas, em se tratando dos falsos mendigos, é preciso considerar que a palavra de Deus nos tem vindo pelo Mestre, que nunca se cansa de nos aconselhar vigilância. É imprescindível não viciarmos o sentimento de piedade, ao ponto de prejudicarmos os nossos irmãos no caminho da vida.

O antigo cobrador de impostos supunha, assim, a sua maneira de ver ; mas Felipe, agarrando-se à letra dos ensinos, replicava com ênfase:
– Continuarei acreditando que é mais fácil a passagem de um camelo pelo fundo de uma agulha do que a entrada de um rico no Reino do Céu.
Jesus não participava dessas discussões, porém, sentia as dúvidas que pairavam no corarão dos discípulos e, deixando-os entregues ao seus raciocínios próprios, aguardava oportunidade para um esclarecimento geral.

Passava-se o tempo e as pequenas controvérsias continuavam acesas.
Chegara, porém, o dia em que o Mestre se ausentaria da Galiléia para a derradeira viagem a Jerusalém. A sua última ida a Jericó, antes do suplício, era aguardada cora curiosidade imensa. Grandes multidões se apinhavam nas estradas.

Um publicano abastado, de nome Zaqueu, conhecia o renome do Messias e desejava vê-la. Chefe prestigioso na sua cidade, homem rico e enérgico, Zaqueu era, porém, de pequena estatura, tanto assim que, buscando satisfazer ao seu desejo ardente, procurou acomodar-se sobre um sicômoro, levado pela ansiosa expectativa com que esperava a passagem de Jesus. Coração inundado de curiosidade e de sensações alegres, o chefe publicano, ao aproximar-se o Messias, admirou-lhe o porte nobre e simples, sentindo-se magnetizado pela sua indefinível simpatia. Altamente surpreendido, verificou que o Mestre estacionara a seu lado e lhe dizia com acento íntimo :



Zaqueu, desce dessa árvore, porque hoje necessito de tua hospitalidade e de tua companhia.
Sem que pudesse traduzir o que se passava em seu coração, o publicano de Jericó desceu de sua improvisada galeria, possuído de imenso júbilo.
Abraçou a Jesus com prazer espontâneo e ordenou tôdas as providências para que o querido hóspede e sua comitiva fossem recebidos em casa com a maior alegria. O Mestre deu o braço ao publicano e escutava atento as suas observações mais insignificantes, com grande escândalo da maioria dos discípulos. “Não se tratava de um rico que devia ser condenado?” Perguntava. Felipe a si próprio.
E Simão Pedro refletia intimamente : – “Como justificar tudo isto, se Zaqueu é um homem de dinheiro e pecador perante a lei?”
A breves instantes, porém, toda a comitiva perpetrava na residência do publicano, que não ocultava o seu contentamento inexcedível. Jesus lhe seduzira as atenções, tocando-lhe as fibras mais íntimas do Espírito, com a sua presença generosa. Tratava-se de um hóspede bem-amado, que lhe ficaria eternamente no coração.
Aproximava-se o crepúsculo, quando Zaqueu m
andou oferecer uma leve refeição a todo o povo, em sinal de alegria, sentando-se com Jesus e os seus discípulos sob um vasto alpendre. A palestra versava sobre a nova doutrina e, sabendo que o Mestre não perdia ensejo de condenar as riquezas criminosas do mundo, o publicano o esclarecia, com toda a sinceridade de sua alma :
– Senhor, é verdade que tenho sido observado como um homem de vida reprovável; mas, desde muitos anos, venho procurando empregar o dinheiro de modo que represente benefícios para todos os que me rodeiem na vida. Compreendendo Que aqui em Jericó havia muitos pais de família sem trabalho, organizei múltiplos serviços de criação de animais e de cultivo incessante da terra. Até de Jerusalém, muitas famílias já vieram buscar, em meus trabalhos, o indispensável recurso à vida!...
– Abençoado seja o teu esforço! – Replicou Jesus, cheio de bondade.
Zaqueu ganhou novas forças e murmurou:
– Os servos de minha casa nunca me encontraram sem a sincera disposição de servi-los.
– Regozijo-me contigo – exclamou o Messias – porque todos nós somos servos de Nosso Pai.



O publicano, que tantas vezes fora injustamente acusado, experimentou grande satisfação. A palavra de Jesus era uma recompensa valiosa à sua consciência dedicada ao bem coletivo. Extasiado, levantou-se e, estendendo ao Cristo as mãos, exclamou alegremente :
– Senhor, Senhor, tão profunda é a minha alegria, que repartirei hoje com todos os necessitados a metade dos meus bens e se nalguma coisa tenho prejudicado a alguém, indenizá-lo-ei, quadruplicadamente!...
Jesus o abraçou com um formoso sorriso e respondeu :
– Bem-aventurado és tu que agora contemplas em tua, casa a verdadeira salvação.
Alguns dos discípulos, notadamente Felipe e Simão, não conseguiam ocultar as suas deduções desagradáveis. Mais ou menos aterrados às leis judaicas e atentando somente no sentido literal das lições do Messias, estranhavam aquela afabilidade de Jesus, aprovando os atas de um rico do mundo, confessadamente publicano e pecador. E, como o dono da casa se ausentasse da reunião por alguns minutos, afim de providenciar sobre a vinda de seus filhos para conhecerem o Messias, Pedro e outros prorromperam numa chuva de pequeninas perguntas: Por que tamanha aprovação a um rico mesquinho? As riquezas não eram condenadas pelo Evangelho do Reino? Por que não se hospedaram numa casa humilde e sim naquela vivenda suntuosa, em contraposição aos ensinos da humildade? Poderia alguém servir a Deus e ao mundo de pecados?



O Mestre deixou que cessassem as interrogações e esclareceu, com generosa firmeza :
– Amigos, acreditais, porventura, que o Evangelho tenha vindo ao mundo para, transformar todos os homens em miseráveis mendigos? Qual a esmola maior: a que socorre as necessidades de um dia ou a que adota providências para uma vida inteira?
No mundo vivem os que entesouram na terra e os que entesouraram no céu. Os primeiros escondem suas possibilidades no cofre da ambição e do egoísmo e, por vezes, atiram moedas douradas ao faminto que passa, procurando livrar-se de sua presença; os segundos ligam suas existências a vidas numerosas, fazendo de seus servos e dos auxiliares de esforços a continuação de sua própria família.
Estes últimos sabem empregar o sagrado depósito de Deus e são seus mordomos fiéis, à face do mundo.
Os apóstolos ouviam-no espantados. Felipe, desejoso de se justificar, depois da argumentação incisiva do Cristo, exclamou:
– Senhor, eu não compreendia bem, porque trazia o meu pensamento fixado nos pobres que a vossa bondade nos ensinou a amar.
– Entretanto, Felipe – elucidou o Mestre – é necessário não nos perdermos em viciações do sentimento. Nunca ouviste falar numa terra pobre, numa arvore pobre, em animais desamparados? E, acima de tudo, nesses quadros da natureza a que Zaqueu procura atender, não vês o homem, nosso irmão? Qual será o mais infeliz: o mendigo sem responsabilidade, a não ser a de sua própria manutenção, ou de pai carregado de filhinhos a lhe pedirem pão?
Como André o observasse, com grande brilho nos olhos, maravilhado com as suas explicações, o Mestre acentuou:
– Sim, amigos! ditosos os que repartirem os seus bens com os pobres; mas, bem-aventurados também os que consagrarem suas possibilidades aos movimentos da vida, cientes de que o mundo é um grande necessitado, e que sabem, assim, servir a Deus com as riquezas que lhes foram confiadas!

Em seguida, Zaqueu mandou servir uma grande mesa ao Senhor e aos discípulos, onde Jesus partiu o pão, partilhando do contentamento geral. Impulsionado por um júbilo insopitável, o chefe publicano de Jericó apresentou seus filhos a Jesus e mandou que seus servos festejassem aquela noite memorável para o seu coração.
Nos terreiros amplos da casa, crianças e velhos felizes cantaram hinos de cariciosa ventura, enquanto jovens em grande número tocavam flautas, enchendo de harmonias o ambiente.
Foi então que Jesus, reunidos todos, contou a formosa parábola dos talentos, conforme a narrativa dos apóstolos, e foi também que, pousando enternecido e generoso olhar sobre a figura de Zaqueu, seus lábios divinos pronunciaram as imorredouras palavras: – “Bem-aventurado sejas tu, servo bom e fiel!”
Irmão X - Humberto de Campos
Do livro “Boa Nova”. Psicografia de Francisco Cândido Xavier.








domingo, 22 de agosto de 2010

DESENCARNAÇÃO

DESENCARNAÇÃO



Todos nós que um dia “nascemos” temos certeza de que, um dia, também “morremos”. Quando e de que forma vamos “morrer” depende, porém, de nós mesmos. Depende do aproveitamento bom ou mau da vida na Terra. Com o estudo do Espiritismo todos nós já pudemos ficar sabendo disto e mais ainda. Podemos avaliar o nosso passado, reajustar o presente e até construir o futuro.



Na literatura espírita, que a cada dia cresce mais e mais, são incontáveis os depoimentos de Espíritos que contam como desencarnaram e despertaram na Vida Espiritual. Aqui mesmo dispomos de numerosos livros, algumas centenas, talvez, formados pelas cartas que Espíritos de diferentes regiões, variadas idades e atividades já endereçaram a familiares e amigos por intermédio de Francisco Cândido Xavier, Divaldo Pereira Franco e outros médiuns, com narrativas pormenorizadas da vida que aguarda a todos nós. São depoimentos que emocionam pela riqueza das provas que oferecem e que, pela oportunidade, interessam tanto a espíritas e não–espíritas.



Entre tantos depoimentos há um que contém elevada mensagem. É o da forma como desencarnou e despertou na Espiritualidade a amorável mensageira que é Scheilla. Estava num campo de batalha durante a I Grande Guerra, em sua abençoada tarefa de enfermeira, quando foi atingida por uma granada. A abnegação com que exercia suas atividades era tão grande e sincera, de tanto amor, que tão logo seu corpo jovem, ainda, tombou, aproximou-se a figura não menos amorável de um velhinho de barbas brancas e reluzentes. Era Adolfo Bezerra de Menezes, que dizia: -“Irmã Scheilla, não há tempo a perder. Muitos soldados acabam de desencarnar no fragor da batalha. Estão em dolorosa situação. É necessário atender a todos. Vamos trabalhar!”

E Scheilla logo prosseguiu, já na Espiritualidade, aquela abençoada tarefa de socorrer aos que sofrem, tal como fazia quando ainda tinha seu corpo físico.



Allan Kardec esclarece, de forma clara, que a alma quando desencarna passa, de um modo geral, por um estado de perturbação, cujo tempo varia, porém, de indivíduo para indivíduo. Enquanto uns se libertam, felizes da matéria, outros lamentam e até se desesperam porque deixaram as ilusões a que estavam tão apegados. É um sofrimento que dependerá, naturalmente, da conduta que se tenha enquanto “vivos” e também do conhecimento que se alcançar acerca do significado da Vida e da realidade do Plano Espiritual. Mas não há de ser apenas o conhecimento que se tenha da Vida Maior que permitirá que alcancemos uma desencarnação conformada e um despertar tranqüilo no Outro Lado da Vida. Diz-nos a razão que não. Mas a conduta que mantivermos nestes poucos tempos da existência na Terra. Se semearmos o bem, colheremos o bem...



Referência: “O Livro dos Espíritos” (150, 154, 163).



Fonte: BOLETIM SEI

Foto: Informamos o desencarne de Chico, violeiro, seresteiro,  irmão de Ritinha, cujo sepultamento será hoje às 16h:00. Na foto, encontramos Chico entre Wellington(de óculos) e Raimundo seu companheiro de conversa. Desejamos a Chico que a Paz do mestre Jesus o ampare na nossa caminhada de Luz e evolução. Agradecemos a Deus Todo Poderoso a acolhida que com certeza o nosso Irmão é merecedor.
Lastimando a partida de Ritinha e, posteriormente, de Chico, partiram praticamente no mesmo dia, eram irmãos de sangue,  entretanto, nos consolamos com o pensamento de Allan Kardec, que assim nos ensina:  “Nada é inútil na natureza; tudo tem a sua razão de ser, e o que Deus faz é sempre bem feito.”